Milei contra Milei ou a motosserra contra a foto oficial
Não faz muito tempo, Javier Milei prometia explodir o Mercosul com uma motosserra. Segundo ele, o bloco era um fóssil socialista inútil, um circo burocrático que sufocava a liberdade e a prosperidade da Argentina. Era preciso destruí-lo. Dinamitá-lo. A libertação viria depois.
Avançamos alguns meses.
O Mercosul assina um acordo comercial com a União Europeia e, de repente, Milei aplaude como uma foca treinada no SeaWorld. Sorrisos, apertos de mão, parabéns. Ao que parece, o mesmo “relicto socialista inútil” virou magicamente uma fábrica de milagres da noite para o dia.
Engraçado como a ideologia derrete assim que surge uma boa foto.
Se o Mercosul é lixo, por que comemorar sua maior conquista? Ou funciona ou não funciona. Não dá para passar anos gritando “dinamitem o bloco” e depois soltar confete quando o bloco abre mercados. A menos, claro, que princípios sejam opcionais e coerência atrapalhe o marketing.
A realidade é teimosa. A Argentina sozinha negocia como um vendedor ambulante. A Argentina dentro do Mercosul negocia como um continente. Até os europeus entendem isso. Por isso construíram a União Europeia, em vez de vender queijo um por um na fronteira.
Milei quer o fruto sem a árvore, o lucro sem a estrutura, o aplauso sem o pensamento.
Motosserras funcionam em comício. Acordos comerciais exigem instituições, paciência e algo com que Milei costuma ter dificuldade: coerência.
A ideologia embriagada, grita. A realidade sóbria, assina contratos.

