A eterna roleta russa na Argentina


Essa conversa sobre “a crise na Argentina” não começou ontem. Nem nos anos 70. É um processo que se arrasta há muitas décadas.

Entre 1962 e 1973, aconteceu algo que resume bem a lógica política argentina: um golpe militar dado por ditadores de direita contra outros ditadores de direita que já estavam no poder. Não havia uma disputa de projetos, mas sim disputas internas por parcelas do Estado, interesses corporativos e busca por controle absoluto. Era a elite militar girando a engrenagem contra ela mesma.

E isso se repete em 1976. O golpe dos militares de extrema direita liderados por Rafael Videla não foi, como muitos repetem até hoje, um levante “contra esquerdistas no poder.” Muito pelo contrário: quem governava era um setor direitista do peronismo, responsável inclusive pela famigerada AAA, a Aliança Anticomunista Argentina, um dos grupos paramilitares mais violentos da história recente do país. Ou seja, os golpes não eram disputas ideológicas entre direita e esquerda. Muitas vezes eram choques de interesses entre grupos conservadores, elites econômicas e setores militares que se sentiam excluídos do núcleo de poder.

O roteiro, no entanto, sempre foi o mesmo: crise política, inflação, desemprego, instituições fragilizadas. Surge um grupo prometendo ordem, estabilidade e salvamento nacional. E o resultado se repetiu sistematicamente: mais repressão, mais censura, mais corrupção — e nenhuma solução estrutural.

A ditadura de 1966 a 1973 não terminou por vontade democrática, mas porque o modelo implodiu. A inflação bateu 60% e o país estava exaurido. Na volta dos peronistas da ala direita, com Isabelita e López Rega, o caos político e econômico se intensificou, com improviso, violência e paralisação institucional.

Em 1976, os militares voltam ao poder prometendo estabilidade. O que entregaram foi terrorismo de Estado, cerca de 30 mil desaparecidos, explosão da dívida externa, a derrota humilhante nas Malvinas e uma inflação que, ao final, chegaria a 380%. Uma repetição trágica de erros e abusos.

Além disso, nacionalizaram a dívida privada, fazendo com que a população arcasse com dívidas milionárias de grandes empresas. Um marco do colapso ético e econômico.

Com Alfonsín, as intenções eram democráticas e moderadas, mas sem reformas profundas e sem planejamento consistente, a inflação explodiu para mais de 600% e ele deixou o cargo antes do fim do mandato. A frase que marcou sua saída foi a mesma de governos anteriores: “a crise é insustentável.”

Nos anos 90, Menem e Cavallo implementam o receituário neoliberal. Privatizações, abertura econômica, FMI, a promessa do “primeiro mundo.” O modelo funcionou durante alguns anos, até implodir violentamente em 2001: poupanças confiscadas, desemprego em massa, cinco presidentes em duas semanas, mais de 3.000% de inflação acumulada. Uma das piores crises da história do país.

Os Kirchner vieram depois, oferecendo alguma recuperação social e estabilidade temporária. Mas, sem mudanças estruturais, a Argentina continuou presa aos mesmos problemas: inflação crônica, fuga de capitais, endividamento e improviso permanente.

Hoje, com Milei, o país volta ao velho ciclo: inflação de 138%, pobreza em alta, medidas de choque e ausência de um plano profundo e de longo prazo. A retórica muda, mas a estrutura continua igual.

O fato central é que a inflação argentina não é responsabilidade exclusiva da direita, da esquerda ou do centro. É consequência de décadas de problemas estruturais somados à atuação de grupos que lucram com o caos: especuladores, setores empresariais privilegiados, políticos, burocratas e intermediários financeiros. Enquanto houver quem ganhe com a instabilidade, ela não termina.

Basta lembrar do que aconteceu com vários bancos que simplesmente desmoronaram quando o Plano Real de 1994 secou a torneira da inflação. Bamerindus, Econômico, Banco Real e tantos outros viviam de um modelo de parasitismo financeiro quase perfeito. Não eram exatamente instituições sólidas. Eram estruturas que prosperavam única e exclusivamente graças à inflação estratosférica.

Com a inflação alta, ninguém precisava ser gênio para lucrar. Bastava ter dinheiro parado e aplicar nas operações de curtíssimo prazo, como o famoso overnight. Era o paraíso dos acomodados e dos oportunistas. O banco pegava o dinheiro hoje, aplicava por algumas horas, ganhava no embalo da inflação diária e devolvia amanhã. Zero esforço, zero risco, zero criatividade. Na prática, quanto pior ia a economia e quanto mais o brasileiro sofria para comprar arroz e feijão, melhor iam esses bancos.

Quando o Plano Real entrou em cena, acabando com a hiperinflação e trazendo estabilidade monetária, veio o teste de verdade. E aí ficou escancarado quem sabia trabalhar como banco de verdade e quem vivia dependurado no tubo de oxigênio da inflação. Os que caíram não caíram por azar nem por perseguição. Caíram porque não estavam preparados para um ambiente onde lucro dependesse de eficiência, crédito bem estruturado, inovação e gestão competente, e não da miséria alheia.

A estabilização monetária fez uma faxina profunda no sistema financeiro. E, como toda faxina, deixou exposto o que já vinha apodrecendo há décadas.

Mas a Argentina é rica em recursos naturais:
Recursos naturais não são garantia de prosperidade. Hoje, países ricos são aqueles que têm estabilidade institucional, planejamento, educação, respeito a constituição e continuidade política — como Japão, Suíça, Nova Zelandia, Coreia do Sul e Singapura —, mesmo sem grandes recursos naturais.
A Argentina, ao contrário, segue em busca de um “salvador” a cada década: Perón em 73, os militares em 76, Menem nos 90, Kirchner nos 2000, Milei agora. Sempre aparece alguém prometendo refundar o país do zero, embalado pela mesma fórmula desgastada: inventar inimigos imaginários, vender soluções mágicas e praticar o famoso criar dificuldade para vender facilidade.

E, como diz aquela velha máxima, loucura é repetir o mesmo comportamento esperando resultados diferentes.

A política argentina acaba parecendo exatamente isso. Um ciclo de promessas mirabolantes, culpados convenientes e saídas fáceis que, no fim das contas, quase sempre leva ao mesmo desfecho previsível.

Peronismo de direita: desastre.
Ditadura de extrema direita: desastre.
Neoliberalismo dos anos 90: desastre.
Centro-esquerda kirchnerista: desastre.
Ultraliberalismo de Milei: tendência ao mesmo resultado, com viés autoritário crescente.

E nenhum desses períodos supera aindaA Década Infame (1930-1943) outro capítulo sombrio da política argentina moderna cheio de golpes e fracassos econômicos.
Alias, para mostrar que a coisa vem de longe existe outro episodio na Argentina chamado de A Anarquia da Década de 20. E não , não foi na década de 1920, mas sim de 1820.

Por isso, a política argentina parece uma roleta-russa com todas as balas no tambor. E, mesmo assim, sempre aparece um político disposto a girar o tambor, apertar o gatilho e acreditar que, dessa vez, a arma não vai disparar…

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