O Chanceler da Alemanha, Friedrich Merz que participou da Cúpula dos Líderes da COP30 na capital paraense criou um mal-estar diplomatico ao afirmar: “Minhas senhoras e senhores, vivemos num dos países mais bonitos do mundo. Perguntei a alguns jornalistas que estiveram comigo no Brasil na semana passada quem gostaria de ficar lá. Ninguém levantou a mão”. “Todos ficamos contentes por regressar à Alemanha, sobretudo daquele local onde estávamos, na noite de sexta-feira”
Mais além do eurocentrismo que pulsa no DNA de grande parte da elite europeia, existe um ângulo ainda mais incômodo para entender este tipo de incidente: a imagem do Brasil no exterior.
Basta perguntar a qualquer brasileiro que vive há muito tempo fora. A resposta costuma vir quase automática. Lá fora, o Brasil é visto como uma versão “turbinada” da Nigéria: um país colossalmente rico em recursos naturais, visualmente deslumbrante, mas inseparável de violência, instabilidade, desigualdade e caos urbano. que afetam o país africano. E essa má reputação se agarra à pele do Brasil com a tenacidade de uma tatuagem muito bem feita. E não é difícil entender por quê.
A fama de país violento funciona como um peso de chumbo em qualquer plano turístico para um turista estrangeiro. Já reparou por que no Rio, Salvador ou Recife não existe aquela multidão de turistas japoneses, coreanos e chineses que enchem as ruas de Nova York, Paris, Londres ou Sydney? Não é acaso. Esses países asiáticos vêm de sociedades com taxas de homicídio mínimas, criminalidade pequena, porte de armas raro e uma polícia que funciona com previsibilidade quase matemática. Eles tem verdadeiro pavor de armas.
E daí, quando pesquisam sobre visitar o Brasil, o que encontram?
• taxas de homicídio acima de 20 por 100 mil habitantes (e até acima de 40 em alguns estados);
• rankings internacionais colocando o Brasil entre os países mais violentos do planeta, e cidades entre as 29 mais violentas do mundo.
• notícias de arrastões, tiroteios, sequestros relâmpago e balas perdidas;
• reportagens sobre favelas controladas por facções e milícias;
• chacinas periódicas que ganham manchetes internacionais.
Cada novo episódio reforça o estereótipo. O turista estrangeiro não se interessa em saber se foi a policia que cometeu a chacina, ou se foi a milícia, ou facções rivais. Muito menos eles sabem se a chacina aconteceu longe de Ipanema ou no bairro vizinho. Para eles é tudo Rio de Janeiro.
Assim sendo, é importante lembrar que o turismo internacional não opera com estatísticas detalhadas do IBGE. Opera com percepção, com reputação, com sensação de risco. E a percepção do Brasil hoje não é boa. Alias já faz tempo.
Sim, a comparação com a Nigeria dói, mas é real, verdadeira.
Com o mesmo valor de uma viagem ao Rio, um europeu pode ir para a Tailândia, Malásia, Vietnã, Filipinas ou Bali. Lá, ele encontra hotéis tão bons ou melhores, praias tão bonitas quanto e praticamente nenhum risco de ser assaltado a caminho do restaurante.
É uma escolha simples para qualquer pessoa minimamente racional.
Enquanto isso, cidades brasileiras acumulam alertas oficiais de governos estrangeiros. O Departamento de Estado dos EUA classifica diversas regiões do Brasil como nível 3 ou 4, o famoso “Não viaje”. Isso não espanta dezenas, mas milhões de turistas potenciais.
De uma certa forma é o mesmo fenômeno que destruiu o turismo do Haiti ou Trinidad y Tobago, praias espetaculares, clima perfeito, cultura riquíssima. Mas basta uma reputação de violência e instabilidade para transformar um paraíso natural em um destino vazio.
Reputação mata turismo, simples assim.
E o Brasil, lamentavelmente, caminha para esse mesmo tipo de estigma.
Cada turista assaltado no Rio, cada tiroteio viralizado, cada notícia de estrangeiro baleado vira combustível para reforçar a imagem de país violento, caro e imprevisível. No exterior, essas histórias circulam como epidemia. E não é nem preciso explicar que imprensa adora noticia de tragédias.
Se o Brasil quiser competir com Tailândia, México, Espanha, Turquia ou Republica Dominicana, primeiro o país precisa enfrentar o elefante no meio da sala.
E este elefante tem nome: Segurança.
Sem segurança, não existe marketing, campanha oficial ou slogan que resolva.
Pode jogar rios de dinheiro em campanhas publicitarias no exterior e nada vai resolver.
Porque, convenhamos: europeus e americanos atravessam o planeta até Bangkok sabendo que podem andar de madrugada com relógio Rolex e corrente de ouro, e falar no celular sem medo algum de ser assaltado..
Por outro lado, responda com sinceridade total:
Dá para dizer o mesmo de Belém? Rio de Janeiro? Salvador? Natal? Fortaleza?
E assim sendo, fica até difícil entender por que alguém acharia que o diplomata alemão está errado. Porque, convenhamos, as instruções dadas aos estrangeiros em Belém foram praticamente um manual de sobrevivência urbana: não sair à noite, não usar nada de valor e jamais, sob hipótese alguma, tirar o celular do bolso na rua, nem que fosse só para ver as horas. Basicamente, a recomendação era se transformar em uma entidade invisível para aumentar as chances de voltar ao hotel inteiro.
Claro que isso machuca o ego nacionalista. Provoca aquele sentimento patriótico súbito de perguntar quem ele pensa que é. Mas aí entra a realidade, sempre inconveniente. No fundo, todo mundo sabe que o diplomata não estava exagerando. Ele apenas verbalizou o que muitos fingem não ver.
Afinal, quem realmente quer visitar ou morar em uma cidade que, embora charmosa, histórica e visualmente encantadora, carregava até pouco tempo atrás a façanha estatística de setenta e cinco homicídios por mil habitantes. Sim, setenta e cinco por mil. Isso transforma a vida cotidiana em uma espécie de roleta russa social. Para efeito de comparação, é setenta e cinco vezes a taxa da Alemanha. Setenta e cinco vezes. A Alemanha.
Mas, claro, a culpa é do diplomata. Ele deveria ter sido mais sensível, mais educado, mais disposto a proteger o orgulho nacional. Talvez pudesse ter dito algo mais acolhedor, como afirmar que Belém é maravilhosa e que só precisa reduzir sua taxa de assassinatos em algo próximo de noventa e nove por cento. Com esse tipo de cuidado emocional, ninguém se ofenderia.
No fim das contas, a indignação patriótica só serve para esconder o óbvio. Todo mundo finge que o problema é o comentário do alemão, quando na verdade o incômodo real é a realidade que o país insiste em varrer para debaixo do tapete como quem empurra poeira para debaixo do sofá e finge que resolveu a faxina.
Sim, claro, o diplomata alemão “exagerou”. Afinal, o Brasil é apenas o segundo país do mundo em homicídios, com mais de quarenta mil mortes por ano. Nada demais. A Índia tem seis vezes mais gente e mata menos. O México vive uma guerra aberta contra cartéis e ainda assim fica atrás. E o número total de mortos no genocídio de Gaza é praticamente o mesmo, com a pequena diferença de que no Brasil esse número se repete todo ano como quem renova assinatura de serviço de streaming.
Mas é claro, o alemão é que está errado. Só alguém muito cego ou muito nacionalista para achar que o problema foi o comentário e não o fato de que ele apenas descreveu o óbvio que tanta gente prefere não enxergar. A violência no Brasil ultrapassa todos os limites, e logo logo o país corre o sério risco de ultrapassar a Africa do Sul e se tornar o país mais violento do mundo.

