Europa: derrotismo ou transformação Histórica?
Há quem enxergue a Europa como um velho império desorientado, tropeçando no próprio declínio como se tivesse perdido o rumo por acidente. Mas essa interpretação ignora a gigantesca mudança tectônica que está em curso. Pela primeira vez em duzentos anos, o centro real de poder global está se deslocando da Europa e da América do Norte para os países dos BRICS e sua crescente constelação de parceiros. Esse movimento, por si só, obriga o continente europeu a repensar tudo.
Chamar esse cenário de “declínio voluntário” é simplesmente derrotismo. A Europa não está atirando no próprio pé. Pelo contrário. Depois de quatro séculos ditando as regras do jogo, o bloco se vê diante da necessidade urgente de se reinventar para continuar relevante em um mundo onde Brasil, Índia, Rússia e China operam com populações colossais, reservas monumentais e vastíssima capacidade industrial.
Os burocratas de Bruxelas não estão aprovando políticas para enfraquecer a Europa. Estão tentando construir uma entidade política e econômica capaz de sobreviver em um planeta dominado por potências de tamanho continental. O paradigma agora é dos grandes blocos. Países médios ou pequenos, agindo isoladamente, têm peso geopolítico equivalente ao de uma pluma.
Os números mostram a dimensão do desafio. O país mais populoso da União Europeia tem cerca de metade da população do Brasil ou da Rússia. Nenhum membro da UE, nem mesmo a poderosa Alemanha, possui reservas cambiais que se comparem às das maiores economias dos BRICS. Diante disso, a reinvenção não é opcional. É necessária. Trata-se de adquirir escala, coerência e massa econômica suficientes para continuar no jogo. É a lagarta tentando virar borboleta.
O problema é que unir os estados-membros da UE é como tentar pastorear gatos. Cada país está imerso em suas brigas domésticas, rixas antigas, identidades nacionais rígidas e bandeiras orgulhosas, embora irrelevantes no cenário global. Falta visão de longo prazo. Falta perceber que, no novo tabuleiro geopolítico, uma nação europeia de porte médio agindo sozinha terá a relevância internacional de Luxemburgo. Sua voz ecoará com a força de Liechtenstein gritando do outro lado do Reno.
A Europa só continuará poderosa se permanecer unida. E unidade exige enfrentar o velho calcanhar de Aquiles europeu: o nacionalismo, o tribalismo e o apego a rivalidades medievais. Foi esse mesmo impulso tribal que levou às duas guerras mundiais que devastaram o continente e extinguiram sua supremacia global. E foi essa mesma lógica que alimentou o Brexit, as guerras dos Bálcãs nos anos 90, Viktor Orbán e tantos outros sintomas de regressão política.
O tribalismo europeu dos anos 90 também sabotou a chance histórica de integrar a Rússia. Em vez de ajudar um país em colapso a se estabilizar e eventualmente entrar para a família europeia, a UE, seguindo o reflexo automático de Washington, optou por isolar, conter e humilhar Moscou. Em vez de enxergar a oportunidade estratégica de incorporar 140 milhões de pessoas e vastos recursos naturais, os líderes europeus simplesmente obedeceram aos impulsos da Guerra Fria. O Reino Unido empurrou essa linha, os Estados Unidos colheram os frutos e a Europa perdeu uma oportunidade que talvez nunca volte.
Hoje, o mundo mudou de forma tão abrupta que Bruxelas começa a despertar. Devagar, talvez tarde demais, mas desperta. As placas geopolíticas se deslocam. Novos “continentes” político-econômicos surgem em tempo real. E a União Europeia tenta desesperadamente acompanhar o ritmo, porque a alternativa é virar peça de museu.
A grande verdade é simples: a Europa está se transformando porque precisa. A Europa conhecida nas últimas décadas talvez esteja com seus dias contados, e isso não é motivo para lamento. É sobrevivência. É adaptação. É evolução geopolítica diante de um mundo que já não gira em torno do Atlântico, mas sim de um planeta multipolar que cresce, se expande e reescreve as regras a cada ano.

