O Bode Expiatório Americano: Sempre o Mesmo Conveniente Vilão


Certo… então o problema são os imigrantes?

Essa narrativa é conveniente. É sempre mais fácil responsabilizar quem não tem poder político, econômico ou voz pública. No caso de parte da elite política conservadora, especialmente dentro do Partido Republicano, essa retórica cumpre uma função clara: desviar a atenção de interesses muito mais amplos e profundos, entre eles os contratos bilionários da indústria de defesa.

O que chama atenção é como esse discurso também convence pessoas comuns, muitas vezes trabalhadores que enfrentam dificuldades para pagar aluguel, manter suas próprias contas em dia e lidar com um custo de vida crescente. Atribuir a deterioração de sua qualidade de vida aos imigrantes torna-se uma explicação simples, ainda que incorreta, para problemas extremamente complexos.

Os Estados Unidos enfrentam inúmeros desafios estruturais, mas imigrantes não estão no centro deles. O país lida com um sistema de saúde caro e pouco acessível, com inflação em setores essenciais, com estagnação salarial e com uma desigualdade crescente. Nada disso foi criado por quem trabalha em empregos de baixa remuneração e baixa proteção, muitas vezes realizando tarefas que poucos cidadãos aceitam desempenhar.

A título de comparação: a indústria de defesa recebe 270 milhões de dólares por dia para desenvolver o F-35, há vinte anos.
Não não se trata de erro de escrita. Você leu bem, eles receberam em média 270 milhões de dólares por dia nos ultimos 20 anos.
Trata-se de um programa cujo custo total já ultrapassa 2 trilhões (com T maiuscula) de dólares. Esse dinheiro não está indo para escolas, saúde pública, infraestrutura ou salários. Está concentrado em uma única máquina de guerra que enfrenta atrasos, falhas estruturais e orçamentos estourados.

Em novembro de 2024, o Departamento de Defesa falhou pela sétima vez consecutiva em sua auditoria anual. O órgão responsável pelo maior orçamento militar do planeta, 824 bilhões de dólares, não consegue explicar que fim levou parte substancial de seus ativos. Há 4,1 trilhões de dólares em registros que simplesmente não podem ser rastreados pelos economistas do Pentagono. Não é um acontecimento isolado, mas um padrão.

Além disso, a perda sistêmica de recursos públicos não se restringe às Forças Armadas. Exemplos recentes incluem dezenas de bilhões de dólares destinados à Ucrânia cuja rota ainda não foi completamente esclarecida, assim como enormes recursos aplicados em “reconstrução” no Afeganistão que desapareceram sem deixar rastro..

Enquanto isso, a IRS ( a Receita Americana) estima que o “tax gap”, ou seja, a diferença entre o que deveria ser pago em impostos e o que é realmente pago dentro dos Estados Unidos, alcançou 696 bilhões de dólares em 2024. Trata-se de evasão, elisão e subdeclaração de impostos praticadas principalmente por grandes corporações e indivíduos de altíssimo patrimônio. Em outras palavras, sonegação descarada mesmo.

A realidade é simples: bilionários e grandes empresas utilizam mecanismos legais e financeiros extremamente sofisticados para minimizar ou eliminar sua carga fiscal. Jeff Bezos da Amazon, Elon Musk da Tesla/Starlink e vários outros seguem pagarado quase zero de impostos.
O bilionário Warren Buffett reconhece que paga menos impostos que sua secretária. A família Walton do Walmart, mantém fortunas em trusts multigeracionais com carga tributária mínima que é uma maneira de doar dinheiro para os netos e herdeiros, e com isso evitar que impostos sejam pagos.
Enquanto isso, muitos funcionários do Walmart recebem salários tão baixos que se qualificam para assistência alimentar pública, os famosos Food Stamps.
Outras empresas, como Apple, Facebook e conglomerados ligados ao petróleo, utilizam paraísos fiscais no Caribe e na Europa para deslocar lucros e reduzir drasticamente sua contribuição tributária.

Portanto, centrar a culpa no imigrante que trabalha em atividades essenciais, frequentemente mal remuneradas e com pouco ou nenhum direito trabalhista, é ignorar deliberadamente a escala real do problema. O foco recai sobre quem não tem lobby, não tem representação política e não tem capacidade de influenciar o debate público.

E essa dinâmica se repete em outras áreas. A quantia enviada pelos Estados Unidos a determinados aliados internacionais é significativa. Só para Israel, por exemplo, o valor aproximado é de 7,200 dólares por minuto. Sim, você leu bem, 7,200 por minuto. Enquanto você leu isso aqui, eles ja mandaram mais 7,200 dolares para Israel.
São decisões assim que drenam os recursos públicos, e não a ação ou presença de imigrantes dentro do país.

Diante disso, direcionar indignação contra trabalhadores imigrantes não resolve nenhum problema estrutural. Apenas cumpre a função de manter o debate público afastado das questões que realmente determinam o rumo econômico, fiscal e social dos Estados Unidos.

É como o guarda do banco se preocupar com um pivete que esta tentando roubar uma caneta do banco, enquanto ladrões levam o cofre pela porta dos fundos.


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