A Democracia Brasileira: Um Ensaio Permanente que Nunca Estreia



As eleições da chamada República Velha eram um teatro mal ensaiado. A palavra democracia aparecia nos discursos, mas nunca na prática. Os resultados eram tão desproporcionais que beiravam a caricatura: candidatos oficiais com mais de noventa por cento dos votos, enquanto a oposição, quando não era impedida de concorrer, mal chegava a dois dígitos.

A eleição de 1918 é um exemplo quase obsceno. Rodrigues Alves foi proclamado vencedor com noventa e nove vírgula cinco por cento, e Nilo Peçanha, que já havia sido presidente, recebeu apenas zero vírgula quarenta e cinco por cento. Não era competição, era aclamação forçada. E a situação ficou ainda mais absurda em 1926, quando Washington Luís venceu com noventa e nove vírgula sete por cento, deixando Joaquim Assis Brasil com humilhantes zero vírgula dezesseis por cento. Um número tão ridículo que dá a impressão de que nem a própria família do candidato votou nele.

O motivo era simples. O voto era controlado e manipulado, o voto a cabresto predominava e o coronelismo ditava os rumos de cada urna. Os resultados refletiam apenas um sistema que jamais permitiu alternância real de poder. Era uma democracia de papel, em que a caneta dos poderosos valia mais do que a vontade popular.

A raiz do problema brasileiro vai além da corrupção da elite. Elites são iguais em todo lugar. Buscam preservar privilégios. O que diferencia o Brasil é a ausência histórica de democracia. Aqui, a elite não só enriqueceu, mas fez isso sem jamais dividir poder. Os números deixam isso evidente.

Em 1874, com uma população de aproximadamente dez milhões, apenas um milhão de pessoas podiam votar, o que representava cerca de dez por cento. Em 1910, a população subiu para vinte e dois milhões, mas o número de eleitores caiu para seiscentos e vinte e sete mil, pouco mais de dois vírgula oito por cento. Em 1933, o país tinha trinta e seis milhões de habitantes e somente um vírgula quatro milhão de votantes, por volta de quatro por cento.

O Brasil levou sessenta anos para recuperar o nível de participação popular que já tinha no século dezenove. E quando finalmente se aproximou disso, surgiu o golpe de Vargas em 1937 e tudo desmoronou de novo. O breve período democrático iniciado em 1945 permitiu que o total de eleitores chegasse a cerca de quatorze por cento da população. Mesmo assim, esse momento durou apenas dezenove anos até ser destruído pelos tanques em 1964. Só em 1989, quase um século depois da proclamação da República, o povo voltou a escolher seu presidente.

Durante toda essa trajetória, mesmo quando existiam eleições, elas eram restritas. O voto era privilégio de uma minoria formada por homens brancos, ricos e alfabetizados. Mulheres, negros e pobres simplesmente não existiam politicamente. Nas ditaduras, o voto era abolido, fraudado ou esvaziado de qualquer sentido. Sem democracia, o povo foi mantido mudo, sem sindicatos independentes, sem greves, sem imprensa livre e sem qualquer espaço para pressionar ou transformar a sociedade.

Enquanto isso, no final do século dezenove e início do século vinte, milhões de trabalhadores nos Estados Unidos realizavam greves e conquistavam direitos. No Brasil, quem tentasse fazer o mesmo era preso, censurado ou morto. A desigualdade brasileira nasce exatamente disso. O país foi, sistematicamente, governado contra o povo. Sempre que surgia um ciclo democrático, ele era esmagado por generais, oligarcas ou juízes servis que agiam sempre em nome da ordem.

E esse roteiro voltou a aparecer recentemente, quando um ex capitão ressentido e seus seguidores tentaram mais uma vez arrancar do povo sua arma mais poderosa. O voto. Queriam restaurar o velho Brasil, o Brasil da minoria mandando e da maioria calada.

Mas o Brasil de dois mil e vinte e cinco não é o Brasil de 1937. O povo aprendeu. Em 2022, com duzentos e dez milhões de habitantes, mais de cento e cinquenta e seis milhões estavam aptos a votar. Foi o maior nível de participação popular da história do país. Quase setenta e quatro por cento da população tem hoje o direito ao voto. A democracia deixou de ser privilégio e começou a se aproximar de um direito universal.

A elite que sempre desprezou a democracia precisa entender. Ou o país finalmente se torna de todos, ou deixará de ser país.


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