Quem quebrou a Venezuela: a pergunta que a propaganda evita


Vamos aposentar de vez o conto de fadas de que a Venezuela vivia uma democracia exemplar até a chegada do Chávez?
Entre 1958 e 1999, o tal pacto de Punto Fijo funcionava como uma roleta viciada, onde só dois partidos de direita tinham autorização para brincar de alternância no poder.
A tal “repressão Venezuelana” não começou com o chavismo, começou muito antes: a policia política DIGEPOL invadia redações de jornais como Clarín, La Tarde e La Hora, prendia opositores e criava o clima perfeito de um Estado vigilante. Em 1984, a Guarda Nacional metralhou ônibus cheios de estudantes no Massacre de Tazón. No governo Leoni, dissidentes eram enterrados em cavernas como se fossem lixo. E a Universidade Nacional foi fechada por três anos por enfrentar o regime de Rafael Caldera. Três anos, não três dias.
Sem falar no famoso massacre “Caracazo” de 1989, sob o governo de Carlos Andrés Pérez, que deixou mais de mil mortos.

Tudo isso, 10 anos antes de Chavez se eleger, a chamada “democracia” pre-Chavez.

Corta para 2025.
Até outro dia, o parlamento venezuelano era dominado pela oposição. Governadores opositores administravam estados essenciais. Figuras como Capriles falam mal do Maduro todos os dias e, veja só, continuam soltas. Há protestos nas ruas e nem todos se transformam em prisão em massa. Comparando critérios mínimos, a Venezuela continua mais democrática que a Arábia Saudita, aliada intocável de Washington que ninguém no Ocidente parece ter coragem de criticar. E curioso: ninguém chama o governo saudita de regime. Mas para a Globo e similares, esse cuidado linguístico só vale para aliados dos Estados Unidos.
E enquanto os arautos da imprensa repetem que a Venezuela vive uma ditadura feroz, vale olhar um dado básico que nunca aparece no Jornal Nacional. Hoje, novembro de 2025, a Venezuela tem quase sessenta partidos políticos registrados. Sessenta. E o governo Maduro nem governa sozinho. Ele administra o país em coalizão com oito outros partidos.

Que tipo de ditadura é essa que permite a existência de sessenta partidos e ainda divide o poder com outros oito? Uma ditadura muito peculiar, aparentemente, onde o “ditador” é obrigado a negociar, dividir ministérios, ceder posições e conviver com oposição institucionalizada que ocupa cargos e governos estaduais. Uma ditadura que, curiosamente, se parece muito com um sistema multipartidário normal… só que narrado por quem nunca abriu um livro de ciência política.

Enquanto isso, grande parte da mídia ocidental, Globo incluída, faz acrobacias quase olímpicas para não discutir o óbvio: a economia venezuelana foi destruída não pela má gestão Chavez/Maduro mas sim, pelas sanções norte-americanas. E não é opinião, é FATO, é reportagem.
O próprio Washington Post reconheceu que as sanções de Trump provocaram um colapso econômico três vezes maior que a Grande Depressão Americana dos anos 30.
O êxodo em massa não começou porque Maduro simplesmente acordou incompetente em 2017. Não, começou quando o governo Trump mandou congelar US$ 1 bilhão em ouro venezuelano na Inglaterra, confiscou US$ 11 bilhões da PDVSA e cortou o acesso do país às próprias reservas.
E hoje, em 2025, são mais de 1.300 sanções sufocando a economia.
Mas a mídia tradicional prefere não investigar e repete a ladainha preferida: a culpa é toda do Maduro.
Ladainha que coincidência ou não, esta sincronizada com o Departamento de Estado Americano.
Mais fácil culpar um Maduro da vida do que discutir a guerra atômica econômica conduzida por Washington contra a Venezuela.
E não vem de hoje, desde os tempos de Obama, quando Caracas decidiu comprar caças de verdade, Sukhoi Russos, ao invés das sucatas Americanas vendidas para países de segunda linha. O Brasil que o diga, com seus F5 comprados de sucata da Jordânia e os “modernos” Gripen que a Suécia já tinha aposentado.

E deixemos claro: não tenho simpatia alguma pelo Maduro. Mas quando a Globo e seus clones só repetem a versão podada e higienizada que sai da embaixada dos Estados Unidos, aí eles viram caixa de som na praia do Departamento de Estado. Altos, incômodos e sem espaço para alternativas. A única dúvida é se fazem isso por convicção ou por cachê.

No fim das contas, nada disso tem a ver com amor à democracia. Tem a ver com quatro pontos bem simples:

  1. A Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do planeta.
  2. A Venezuela compra armamento sério e de verdade da Rússia. E o faz fora do controle dos Estados Unidos, o que a coloca automaticamente no campo errado.
  3. Os exilados de direita em Miami sonham com o dia em que vão dividir o bolo do petróleo se Maduro cair.
  4. Os Estados Unidos são viciados em petróleo. Consomem mais de 7.3 bilhões de barris por ano. Sim bilhões com B maiúsculo. Se colocarmos os barris lado a lado, chegariam até a lua e voltariam duas vezes. Sem petróleo, a economia deles apaga. Sem petróleo, seus poderosos porta aviões não navegam, seus modernos caças de ultima geração não decolam e seus massivos tanques ficam parados. O petróleo é o sangue da economia americana.

Se alguém duvida, relembre a invasão do Iraque e as tais armas de destruição em massa que nunca existiram. Veja até onde os Estados Unidos estão dispostos a ir para garantir acesso aos recursos que movem sua máquina militar e seu estilo de vida.
Ou ouça o próprio Dick Cheney, o manda chuva do governo Bush Jr., resumindo a doutrina Amerocana com sinceridade rara: “Deus não colocou petróleo e gás somente onde existem regimes democráticos simpáticos aos Estados Unidos. Assim que não temos escolha, temos que operar onde seria preferível não operar, por isso vamos onde o nosso “negócio” está. Custe o que custar.”

Resumindo: este é o jogo. Todo o resto é cortina de fumaça para enganar desavisados leitores assiduos da mídia tradicional.

Para quem realmente quer entender o que aconteceu, basta olhar para os fatos. O Washington Post publicou, com todas as letras, o impacto direto que as sanções impostas em 2017 tiveram no colapso econômico que desencadeou a migração em massa de Venezuelanos. O jornal descreve com clareza que analistas dentro da própria Casa Branca haviam alertado que aquelas medidas empurrariam a Venezuela para uma depressão profunda. Em outras palavras, sabiam exatamente o que iria acontecer.

Mesmo assim, prevaleceu a estratégia do caos. Trump optou por uma política cujo objetivo não era estabilizar, negociar ou resolver, mas sim implodir a economia Venezuelana para gerar pressão política interna. O resultado foi o que todos já conhecem: um país levado ao limite, sua estrutura produtiva desfigurada e uma população inteira colocada em movimento forçado em busca de sobrevivência. Não foi acidente. Não foi inevitável. Foi decisão.

O mais curioso é o silêncio conveniente de 2025. Nenhum dos grandes canais de televisão do Brasil toca nesse ponto, nenhum programa de debate se digna a explicar que a maior crise humanitária da América Latina no século foi, em grande parte, fabricada por uma ação econômica deliberada. Preferem deixar no ar a versão preguiçosa e confortável de que tudo se resume a uma suposta incompetência chavista, como se a história fosse escrita sozinha e como se uma economia integrada ao mercado internacional entrasse em colapso sem interferência externa.

E aqui está o ponto final que ninguém ousa dizer em voz alta. O que devastou a Venezuela foi o estrangulamento milimétricamente calculado conduzido pela maior potência econômica do mundo. Uma política que destruiu cadeias produtivas, derrubou exportações, inviabilizou importações essenciais, cortou linhas de crédito e corroeu o valor da moeda até transforma-la em poeira. Uma política que criou aquilo que hoje muitos fingem ser um fenômeno espontâneo.

Enquanto isso, no Brasil, comentaristas repetem narrativas embaladas para exportação, jornais evitam temas que incomodam aliados internacionais e políticos transformam a miséria alheia em arma de palanque. Falam da crise, mas não dos responsáveis pela crise. Falam dos migrantes, mas não das decisões que os expulsaram de casa.

E é assim que a história se repete. Primeiro cria-se o problema. Depois responsabiliza-se a vítima. E no fim, quando as consequências aparecem na fronteira, nos abrigos e nas manchetes, todos agem como se nada tivesse sido deliberado. Como se fosse obra do destino. Como se a tragédia tivesse brotado do chão.

A verdade é menos confortável. O que aconteceu na Venezuela não foi apenas uma crise. Foi um experimento geopolítico de altíssimo custo humano, conduzido à luz do dia, documentado, avisado e ignorado. E, ironicamente, agora que os resultados estão à vista, aqueles que ajudaram a produzir o desastre preferem virar o rosto. Mas virar o rosto não muda os fatos. E não apaga a responsabilidade.

LINK para a matéria do Washignton Post
https://www.washingtonpost.com/business/2024/07/26/venezuela-crisis-immigration-us-sanctions-trump/.

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