Uma Verdade e Duas Alemanhas: Quando a História é Contada pela Metade


As pessoas adoram repetir uma historinha simplificada sobre o Muro de Berlim, como se ele tivesse sido uma reação instantânea e inevitável à Segunda Guerra Mundial. Mas a realidade é muito menos conveniente. Berlim passou dezesseis anos sem muro algum. A escalada real não veio em 1945, veio aos poucos, primeiro em, 1959 quando Cuba se começou a se alinhar á URSS e Washington entrou em pânico com a ideia de mais um país caindo atrás da Cortina de Ferro. A partir desse momento a Guerra Fria entrou em uma fase muito mais agressiva.E assim em agosto de 1961, começou a construção do famigerado muro de Berlim.

Foi nesse contexto pós Revolução Cubana que Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha Ocidental adotaram uma estratégia clara. O objetivo era constranger a União Soviética onde e quando e sempre que fosse possível, minar sua influência e enfraquecer os estados que estavam sob sua órbita. Berlim, com sua fronteira totalmente aberta, virou o palco perfeito.

Uma das ferramentas mais eficazes usadas pelo Ocidente foi o que muitos historiadores chamam de Operação Brain Drain. Não foi um fenômeno espontâneo. Foi um programa planejado de recrutamento.

A Alemanha Ocidental e seus aliados ofereciam a engenheiros, cientistas, médicos, professores, técnicos e acadêmicos do Leste salários generosos, moradia, status, liberdade para viajar e empregos garantidos. O alvo não eram cidadãos comuns. A intenção era retirar da Alemanha Oriental sua elite intelectual, exatamente as pessoas necessárias para desenvolver a economia, manter as fábricas, conduzir pesquisas e formar novas gerações.

Isso produziu dois efeitos imediatos.

Primeiro veio a perda de talentos, que comprometeu o desenvolvimento tecnológico e econômico e deixou a Alemanha Oriental permanentemente em desvantagem estrutural.

Depois veio a paranoia política. Cada fuga de profissionais corroía a legitimidade do governo do Leste e alimentava o medo constante dentro da Alemanha Oriental, de que qualquer pessoa, inclusive as mais valiosas, poderia ser a próxima a serem co-optadas pelo oeste e abandonarem o país.

Tudo isso aconteceu muito antes de qualquer muro ser construído.

Por que comparar Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental é profundamente injusto

Muita gente aponta para a diferença econômica entre as duas partes como se fosse uma prova de que o capitalismo venceu o socialismo. Como se fizessem uma comparação simples, como comparar BMW com Trabant.
Mas essa comparação ignora as condições iniciais, as intervenções externas e os pesos completamente diferentes que cada lado precisou carregar.

Aqui estão os fatos que raramente são mencionados.

Primeiro ponto: a divisão entregou a parte rica ao Oeste e a parte pobre ao Leste

Quando a Alemanha foi repartida:

A Alemanha Ocidental ficou com as regiões industriais, como o Vale do Ruhr e a Renania, além das grandes cidades, da metalurgia, dos bancos, dos portos, das ferrovias e da maior parte do capital acumulado antes da guerra.

A Alemanha Oriental ficou com regiões rurais, menos povoadas, menos industrializadas e muito mais pobres.

Ou seja, um lado começou com uma base industrial moderna. O outro não.

Segundo ponto: o Plano Marshall impulsionou o Oeste e ignorou completamente o Leste

Entre mil novecentos e quarenta e oito e mil novecentos e cinquenta e dois os Estados Unidos injetaram o equivalente atual a centenas de bilhões de dólares na Europa Ocidental, incluindo a Alemanha Ocidental. Esse dinheiro reconstruiu estradas, fábricas, portos, ferrovias, estabilizou moedas e financiou importações.

A Alemanha Oriental foi excluída do Plano Marshall. Teve de se reconstruir com recursos escassos e sob rígido controle soviético.
Vale lembrar que Roosevelt havia prometido a Stalin, que a URSS seria uma das beneficiadas do Plano Marshall. Uma vez que este faleceu e assumiu Truman, Truman cancelou totalmente qualquer ajuda a URSS e ao contrario de trazer a União Soviética para a esfera americana, ele fez o contrario criando a Guerra Fria.

Terceiro ponto: apenas a Alemanha Oriental pagou reparações de guerra

Os Aliados decidiram que a Alemanha deveria pagar pelas destruições causadas no conflito. A maior parte dessas reparações saiu da região controlada pelos soviéticos, não da região ocidental.

A Alemanha Oriental teve fábricas desmontadas e enviadas para a União Soviética. Máquinas, matérias primas, linhas de produção inteiras e até institutos científicos foram removidos. A Alemanha Ocidental contribuiu com quantias simbólicas e manteve quase toda sua indústria intacta, além de receber investimentos americanos para modernizá la.

Quarto ponto: a fuga de cérebros desequilibrou ainda mais a situação

De 1949 até 1961, antes da construção do muro, mais de três milhões de pessoas deixaram o Leste para viver no Oeste. Uma parte enorme desse grupo era formada por médicos, técnicos, professores, cientistas e engenheiros.

Perder esse tipo de profissional não é como perder população aleatória. Isso destrói a capacidade de um país se desenvolver.

É como comparar dois corredores quando um deles está descalço, carregando uma mochila pesada, perdendo seus treinadores no meio da prova e ainda sendo obrigado a doar parte de seu equipamento para o adversário. Depois alguém olha o resultado final e diz que o corredor descalço deve ser preguiçoso.

É exatamente isso que acontece quando se compara Alemanha Ocidental e Oriental sem entender o contexto completo.

A conclusão

Quando o Muro de Berlim foi erguido em 1961 o jogo já estava completamente desequilibrado.

O Oeste herdou as regiões ricas, manteve sua indústria e recebeu enormes investimentos dos Estados Unidos.

O Leste herdou regiões pobres, perdeu parte da indústria em reparações de guerra, não recebeu ajuda externa e sofreu uma fuga contínua de talentos incentivada pelo Ocidente.

Da próxima vez que alguém repetir histórias simples da Guerra Fria sobre supostas provas de superioridade ideológica, talvez seja bom revisar a linha do tempo e perceber quem estava jogando com os dados viciados desde o início.


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