O Brasil não tem uma elite com projeto de nação porque, para ser sincero, ela nunca precisou de um. A China tem, a Índia tem, a Coreia do Sul tem. Até europeus, canadenses, australianos e americanos possuem algum tipo de plano coletivo, mesmo que seja só para manter a hegemonia. Já por aqui, a elite sempre funcionou com o mesmo software que rodava no século dezoito. Um software colonial, instalado na casa grande e atualizado periodicamente com novos modos de exploração.
Enquanto outros países apostaram em industrialização, educação, ciência e coesão social, a elite brasileira apostou apenas na exclusão. É o único setor em que ela realmente foi pioneira. O projeto é tão sofisticado quanto uma planilha de padaria: autopreservação. Morar em condomínios fortificados que parecem bunkers, colocar os filhos em escolas privadas desde a maternidade, ter plano de saúde que mais parece passaporte diplomático e deixar a mala sempre pronta para Miami, caso o Brasil insista em ser Brasil.
Essa elite não enxerga o país como um todo. Enxerga como estoque de recursos. Terra, gente, impostos, tudo isso é matéria-prima para sustentar conforto privado. O Estado, para ela, não existe para desenvolver nada. Existe para manter privilégios, distribuir isenções, perdoar dívidas e financiar um modo de vida blindado.
E aí surge o capítulo do “orgulho filantrópico”, que no Brasil simplesmente não nasceu. Porque, veja bem, em vários países ricos, filantropia sempre foi símbolo de status. Na Inglaterra, aristocratas e milionários se vangloriavam de fundar escolas, hospitais e instituições de caridade. Era parte do jogo social. No Canadá, milionários como Andrew Carnegie bancaram a construção e manutenção de cento e vinte e cinco bibliotecas, deixando um legado cultural que atravessa gerações. Na Austrália, doar milhões para universidades é quase um esporte nacional entre os endinheirados. Na França, os ricos criavam hospitais, orfanatos e instituições públicas que beneficiavam quem tinha menos. Na Alemanha, famílias de elite fundavam escolas de arte, de música, de artesanato, porque acreditavam que cultura gera nação.
E aí entra a cena quase caricata do comportamento cultural Americano. O milionário americano banca museu, financia biblioteca, cria fundação de pesquisa e abre tudo ao público porque acha que está retornando algo à sociedade. Pode até ser vaidade, mas funciona.
E o rico brasileiro? Não pega nem no mapa da própria cidade. Vai para Paris tirar foto na frente do Louvre, compra uma gravatinha na Hermès e volta para casa dizendo que aqui “não tem cultura”. Construir um museu? Financiar uma biblioteca pública? Doar para universidade? Só se for piada. O máximo que faz é postar uma selfie com legenda profunda tipo “Europa é outro nível”.
Por isso, não existe compromisso real com educação pública, ciência, cultura ou infraestrutura. Só existe um eterno curto prazo orientado por lucros imediatos e um medo quase religioso de qualquer avanço social que venha de baixo.
E essa falta de projeto se explica porque a elite brasileira nunca morou no mesmo país que o resto da população. Ela vive num Brasil paralelo, climatizado, que imita Miami, consome como se estivesse em Dubai e se comporta como turista permanente no próprio território. Vê o país como um caixa eletrônico de luxo cercado de gente incômoda que insiste em ter direitos.
Se dependesse dela, o Brasil seria uma gigantesca offshore tropical. Praia particular, empregada disponível o dia inteiro, porteiro bilíngue, motorista de terno, champanhe gelado e zero responsabilidade com qualquer coisa que não seja o extrato bancário. Uma Disneylândia fiscal cercada de miséria por todos os lados.
E no centro dessa Disneylândia, a elite brasileira brindando com espumante e admirando a vista. Não a vista do mar. A vista dos juros da dívida pública, que para ela é mais bonita que qualquer paisagem desta terra que ela só lembra que existe na hora de converter dividendos.

