Deus x Universo: Quando um Grão de Poeira Resolve Questionar o Infinito


Acreditar em deus numa galáxia como a nossa, a Via Láctea, com suas trezentas bilhões de estrelas, já exige uma elasticidade considerável da imaginação.
Agora tente dar mais um passo: coloque essa galáxia entre trilhões de outras, cada uma abarrotada de bilhões e bilhões de sóis, acompanhados por trilhões de planetas girando em silêncio cósmico.

E então imagine alguém afirmando, com a serenidade de quem comenta o tempo, que o ser divino, o criador de tudo isso, aquele que moldou à mão esse espetáculo indescritável de luz e vazio, dedica parte de suas noites a ler os seus pensamentos. Não só lê, como anota, cuidadosamente, todas as suas escolhas morais. É plausível?

Estamos falando do arquiteto de trilhões de sóis, mas, segundo essa lógica, ele estaria profundamente interessado no que você, um entre oito bilhões de humanos, habitando um pedregulho microscópico perdido numa galáxia remota, fez antes de dormir.
Se recitou a oração correta.
Se depositou o dízimo.
Se comeu ou não carne na sexta-feira santa.

Por favoooooor.

Imagine que você tenha um peixinho dourado. O peixinho não sabe que carrega bactérias no estômago, e entende ainda menos que essas bactérias podem abrigar um vírus. O peixinho mal compreende que vive num aquário. Não sabe em que rua está, muito menos o nome da cidade ou do país. Seu mundo termina na borda de vidro.

Agora imagine esse vírus, minúsculo e desavisado, rezando para um ser imaginário, sem ter a menor noção de que vive dentro de uma bactéria, que por sua vez habita o estômago de um peixe, fechado dentro de um aquário comprado por um dono que o vírus jamais conhecerá. Esse dono usou dinheiro que o vírus não faz ideia de onde veio, emitido por um banco central cujos funcionários ele jamais verá, numa cadeia de existência que se estende muito além da sua compreensão microscópica.

E isso, note bem, é apenas uma escala doméstica, quase infantil, se comparada aos números colossais e incompreensíveis do universo.

E ainda assim, aqui embaixo, neste pequeno palco chamado planeta Terra, há quem acredite que ocupa a mesa VIP do universo. Uma espécie de convidados de honra da criação. Enquanto isso, o cosmos segue seu baile silencioso com uma indiferença majestosa.
Os humanos “descobrem” a América, mas o Sol nasce exatamente como sempre nasceu.
Os humanos detonam uma bomba atômica, e os cometas que passam ao longe não desviam um milímetro de suas órbitas.
A Lua continua seu giro paciente, repetindo o mesmo movimento desde antes do primeiro antepassado erguer a cabeça.

Nada lá fora pulsa, respira ou se altera por causa de qualquer gesto humano, por mais dramático, grandioso ou trágico que pareça para nós.
E sabe por quê? Porque, sendo muito generosos, a Terra compõe zero por cento do universo. Não é “aproximadamente zero”. Não é “quase zero”. É zero, puro e cristalino.

Veja só:
A nossa galáxia, a Via Lactea, tem em torno de 300 bilhões de estrelas como o nosso sol.
Mas é só mais uma galáxia, no chamado Grupo Local de Galaxias que é formado por cerca de 100 galáxias grandes e outras 134 galáxias menores.

Esse Grupo Local é apenas um detalhe dentro da Laniakea Supercluster, que reúne algo em torno de milhões de Grupo Locais.

E  Laniakea Supercluster, por sua vez, é apenas uma entre muitas estruturas ainda maiores, como o Pisces–Cetus Supercluster Complex, um filamento colossal de clusters de galáxias com cerca de 1 bilhão de anos-luz de extensão, espalhado pelo nosso universo observável.

E o nosso universo observável tem aproximadamente 93 bilhões de anos-luz de diâmetro. Ou seja, todos estes numeros astronómicos acima são apenas a parte do universo que conseguimos enxergar. Repetindo: somente a parte do universo que podemos enxergar.
E segundo cálculos realizados com supercomputadores e modelos cosmológicos, o número de universos observáveis pode chegar a um número quase absurdo, algo como 1 seguido de 77 zeros ou 10,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000

Assim sendo, A Terra é um apenas um planetinha minusculo que orbita uma estrelinha numa galáxia qualquer, uma galáxia que existe entre outros bilhões de galaxias que existem somente no universo vísivel.

Matematicamente, a participação da Terra no universo é tão absurdamente pequena que o número nem vale a pena escrever. É algo como 0,000000000000000000000000000000000000000000000000% e depois você continua adicionando zeros até o dia da sua morte e ainda não terá chegado ao número final.
Então sim: zero por cento. E isso sendo educado.

Certamente os humanos podem afetar o próprio planeta, isso sem dúvida. Podemos aquecê-lo, poluí-lo, remodelá-lo, destruí-lo ou consertá-lo. Mas afetar o universo? Nem remotamente. No grande esquema das coisas, a Terra não é nem um pedregulho. É um único grão de areia na maior praia imaginável, perdido entre trilhões de outros grãos que se estendem em todas as direções, mais longe do que nossa mente consegue conceber. Sacudimos nosso grãozinho, brigamos por ele, furamos ele, construímos monumentos nele e achamos que somos titãs cósmicos. Enquanto isso, o universo nem pisca. Não deixamos um amassado, um arranhão, nem uma manchinha em sua superfície. Todo nosso barulho fica aqui, no nosso pontinho flutuando anonimamente em um oceano tão vasto que pode muito bem ser infinito.

Em 1990, Carl Sagan pediu à NASA que girasse a sonda Voyager 1 para registrar uma fotografia da Terra a partir do espaço profundo. Integrante da equipe de imagens da missão, ele insistiu para que a câmera fosse apontada de volta ao nosso planeta antes que os sistemas fossem desligados. Dessa decisão nasceu a imagem icônica do “Pálido Ponto Azul”.

A foto, capturada em 1990, mostra a Terra como um grão de poeira suspenso num feixe de luz solar, a mais de 3.7 bilhões de milhas de distância. Um ponto quase invisível, perdido na imensidão, lembrando silenciosamente o quão diminutos somos diante do vasto palco cósmico

Então, se ainda houver por aí quem insista em um cuidador invisível, atento e amoroso, basta um único rito de realidade. Entre em um hospital infantil. Caminhe até a ala de oncologia. Observe o silêncio pesado, os sussurros cansados, os pequenos corpos travando batalhas que nunca escolheram.

E ali, diante da dor mais inocente que existe, eleve a voz para o seu deus, para o seu guardião divino, para qualquer entidade que supostamente zela pelo mundo. Pergunte apenas isso, sem poesia, sem rodeios, sem teologia alguma:

Por quê?


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