A vida não chega com propósito algum, não oferece manual, não promete redenção. Você simplesmente aparece aqui, como um ator lançado num palco antes mesmo de aprender o próprio nome. Olha em volta e vê que o universo está ocupado demais parindo estrelas, esmagando galáxias e girando eternidades para notar o seu pequeno enredo doméstico. Supernovas se abrem como feridas de luz, buracos negros engolem sistemas inteiros sem cerimônia, e nada disso muda porque você amou, sofreu, venceu ou quebrou a cara. Diante dessa ópera cósmica, nossa existência é apenas o que Shakespeare já sabia: som e fúria, significando nada.
E talvez seja justamente essa indiferença colossal que desmonta a ilusão do “sentido da vida”. Se nada vem com significado impresso, então tudo o que existe é aquilo que você inventa no intervalo. Somos pintores tentando colorir o ar, artesãos improvisando sentido numa oficina que nunca pediu nossa presença. Nietzsche já dizia: no oceano infinito, somos só gotas que caem e desaparecem. Gotas que mal fazem barulho. Gotas que, no pano de fundo do cosmos, não passam de som e fúria, significando nada.
E assim, o valor das coisas depende exclusivamente do olhar que você lança sobre elas. Amar ou trair, criar ou destruir, rir às três da manhã ou chorar no escuro, cuidar de alguém ou virar canalha — para o universo, tudo pesa exatamente a mesma coisa: o peso do nulo. Tudo se desfaz como poeira cósmica movida por ventos que não se importam. Toda escolha humana, quando colocada diante de bilhões de galáxias, é apenas som e fúria, significando nada.
O significado não é dado; é fabricado. Tijolo por tijolo, gesto por gesto, minuto por minuto. Viver é uma teimosia luminosa: acender pequenas lâmpadas num palco imenso onde ninguém está assistindo. É transformar o grande silêncio do cosmos em ruídos íntimos, ecos que só você escuta. É insistir que algo importa, mesmo quando tudo ao redor grita que não.
Porque no fundo somos exatamente isso que Shakespeare definiu com perfeição cirúrgica:
sombras passageiras, atores inquietos que se debatem por uma hora e depois somem sem aplausos;
histórias contadas por idiotas, cheias de som e fúria, mas que não significam absolutamente nada.

