A Economia e a Bola de Cristal: Por que os Economistas Erram Tanto


A economia é impecável para explicar o passado, mas notoriamente incompetente quando se trata de prever o futuro. Depois que tudo acontece, surgem gráficos elegantes, modelos bem comportados e especialistas confiantes apontando causas que, curiosamente, ninguém parece ter enxergado antes. Antes do desastre, reina a segurança excessiva. Depois dele, a certeza retrospectiva.

Dois exemplos ajudam a expor essa fragilidade. O primeiro é a crise financeira de 2007. Durante anos, economistas de grandes bancos, universidades e organismos internacionais garantiam que o sistema era sólido, os riscos estavam bem distribuídos e os mecanismos de controle funcionavam. Quando o castelo de cartas ruiu, veio a hecatombe global. Só então apareceram explicações detalhadas sobre bolhas, alavancagem excessiva e derivativos tóxicos. Tudo parecia óbvio, mas apenas depois do colapso.

O segundo exemplo é a ascensão da China. Por décadas, a narrativa dominante afirmava que o país jamais conseguiria combinar crescimento econômico, planejamento estatal e integração ao mercado global sem colapsar politicamente ou estagnar. Previam crises internas, paralisia econômica ou uma transição inevitável para o modelo ocidental clássico. Nada disso ocorreu. A China se industrializou, acumulou poder tecnológico, financeiro e geopolítico e se tornou uma das maiores economias do planeta, para surpresa dos mesmos analistas que antes descartavam essa possibilidade.

Nos anos 1990, o discurso dominante reforçava essa falsa sensação de controle. Falava se em estabilidade permanente, globalização benigna e mercados emergentes finalmente domesticados pelo capital internacional. Poucos anos depois, a realidade destruiu esse otimismo sem pedir licença. Em sequência quase coreografada, o mundo enfrentou três crises gigantescas que praticamente nenhum economista de prestígio previu com antecedência real. Primeiro, a crise mexicana de 1994, que revelou a fragilidade dos fluxos de capital de curto prazo. Depois, a crise asiática de 1997, que implodiu o mito dos tigres asiáticos imunes a colapsos. Por fim, a crise russa de 1998, que mostrou como até um Estado com arsenal nuclear podia quebrar financeiramente de forma abrupta. Tratadas como eventos isolados, essas crises expuseram, em conjunto, um padrão que os modelos simplesmente não captaram.

O exemplo talvez mais emblemático dessa cegueira institucional atende pelo nome de Alan Greenspan. À frente do Federal Reserve, Greenspan falava como um verdadeiro papa da ortodoxia financeira. Sua palavra era final, quase teológica. Repetia que o mercado se autorregula, que o mercado cuida do mercado e que qualquer intervenção seria não apenas desnecessária, mas prejudicial. Suas afirmações soavam como verdades inscritas em pedra. Poucos ousavam questionar.

Veio então a crise de 2007. Em questão de dias, o mercado que supostamente se autorregulava canibalizou dois bancos históricos, Bear Stearns e Lehman Brothers. O sistema inteiro estava à beira do colapso. Outros gigantes só não tiveram o mesmo destino porque o próprio Federal Reserve interveio de forma agressiva, despejando liquidez e salvando instituições consideradas grandes demais para quebrar. Sem o Estado, o mercado teria implodido. O papa estava errado. Não apenas falhou em prever a crise como sua teoria mostrou se radicalmente distante da realidade.

A lista de surpresas segue longa. Quase ninguém antecipou o estouro da bolha das empresas ponto com no início dos anos 2000, depois de anos de euforia com a chamada nova economia, que supostamente teria abolido ciclos e limites. Poucos previram a crise da dívida europeia a partir de 2010, apesar dos desequilíbrios evidentes. Também erraram, por décadas, ao anunciar que o Japão assumiria a liderança econômica global, antes de o país entrar em uma longa estagnação.

No fundo, o problema não é falta de dados nem de inteligência. É estrutural. A economia lida com sistemas complexos, atravessados por expectativas, pânico, euforia, poder político e interesses conflitantes. Pequenas faíscas produzem efeitos desproporcionais. Por isso, os modelos costumam falhar justamente nos momentos mais críticos.

Em resumo, a economia funciona muito bem como autópsia. Explica com precisão cirúrgica por que o prédio caiu depois que restam apenas os escombros. O problema é que, na hora de prever o desabamento, quase nenhum economista enxerga as rachaduras.


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