A Verdade sobre o “Mensalão” que nunca coube no Jornal Nacional


É lógico sustentar que não houve mensalão no sentido clássico da acusação porque a narrativa foi construída politicamente pela mídia e adversarios do governo, antes mesmo de ser demonstrada juridicamente. O suposto mensalão funcionou simplesmente como instrumento de rearranjo de poder.

A versão mais difundida sustenta que o presidente Lula chefiava um esquema contínuo de compra de votos no Congresso. Essa acusação, porém, jamais foi comprovada. Prova disso é que o próprio presidente sequer foi citado no processo que resultou na condenação de Roberto Jefferson e de outros envolvidos.

O que efetivamente se confirmou foi a existência de um sistema informal de financiamento político, uma prática antiga, estrutural e amplamente disseminada entre praticamente todos os partidos naquele período. Converter esse mecanismo generalizado na narrativa de um suposto “mensalão” não foi uma descrição técnica dos fatos, mas uma construção semântica e midiática, criada para personalizar e simplificar um problema sistêmico muito mais amplo.

Há um ponto central que costuma ser omitido no debate público. O dinheiro apontado como “mensalão” não saiu de áreas como educação, saúde ou programas sociais. Era essencialmente o mesmíssimo dinheiro legalmente alocado pelo próprio governo para publicidade institucional. Ou seja, verbas destinadas a campanhas de comunicação, contratos publicitários inflados e intermediações típicas do setor. Não houve desvio de recursos sociais para pagar parlamentares. O que ocorreu foi a realocação irregular de gastos publicitários para sustentar articulações políticas e alianças parlamentares. Trata-se de uma irregularidade administrativa e eleitoral, não de um saque ao Estado social.

Essa distinção importa porque desmonta a narrativa moralizante. Não se estava retirando dinheiro de escolas ou hospitais para “comprar deputados”. Estava se usando verba de publicidade, tradicionalmente uma das áreas mais opacas da administração pública brasileira, para viabilizar projetos considerados estratégicos pelo governo, sobretudo infraestrutura, reformas e estabilidade da coalizão. Isso não torna o ato correto, mas muda radicalmente sua natureza. Estamos falando de caixa dois e engenharia política, não de um roubo social travestido de conspiração criminosa.

Se houvesse um sistema real e permanente de compra de votos, os partidos supostamente pagos exibiriam disciplina automática nas votações. Isso jamais ocorreu. O Congresso continuou derrotando o governo Lula em pautas relevantes, impondo custos crescentes e exigindo renegociações constantes.
O governo aprovou reformas do modo tradicional do presidencialismo de coalizão brasileiro, por meio de cargos, emendas, acordos e alianças formais. Não existe correlação consistente entre transferência de recursos e comportamento legislativo, o que desmonta o núcleo lógico da acusação.

A crise serviu também a outro objetivo estratégico. Foi usada como instrumento de divisão do Estado. Enquanto o discurso público nos meios de comunicação falavam em ética e moralidade, nos bastidores houve ocupação de espaços institucionais, cooptação de quadros e enfraquecimento deliberado do centro decisório do governo.
Ou seja, não houve purificação do sistema. Houve redistribuição de poder. A prova está no fato de que os mesmos mecanismos continuaram existindo nos governos seguintes, apenas com outros personagens e novo enquadramento narrativo.

Esse quadro fica ainda mais claro quando se analisa o papel do PMDB. Naquele período, o partido era o verdadeiro eixo de sustentação do Congresso para qualquer presidente que quisesse governar. De Sarney a Lula, passando por Collor, Itamar e FHC, todos dependeram, em maior ou menor grau, de sua força parlamentar. O objetivo central do PMDB sempre foi estar no governo, ocupando espaços e absorvendo cargos e repartições. Seu interesse nunca foi moral ou programático, mas estrutural e declaradamente pragmático. A própria liderança do partido afirmava sem constrangimento que o apoio político era trocado por ministérios, diretorias de estatais, fatias do orçamento e controle territorial da máquina pública.

Quando o governo percebeu os riscos dessa dependência quase exclusiva e tentou negociar também com outras forças políticas, o PMDB reagiu elevando o custo do apoio. A instabilidade passou a ser um ativo estratégico. Quanto maior o caos, maior o poder de barganha. A crise moral se transformou em instrumento de pressão institucional, perfeitamente encaixado na lógica conhecida do sistema político brasileiro, em que governabilidade é bem escasso e chantagem parlamentar é método recorrente de acumulação de poder.

Nesse ambiente aparece Roberto Jefferson. Ele não atuou como denunciante movido por ética pública. Ele não era um paladino interessado em limpar o sistema. Muito pelo contrario, Jefferson era um operador veterano, já envolvido no escândalo dos Correios e pressionado por investigações que ameaçavam isolá-lo. Ao perceber que cairia sozinho, fez o movimento clássico. Explodiu o tabuleiro. Criou uma narrativa simples e midiaticamente poderosa. Um governo que pagava mesadas fixas a parlamentares. A força da denúncia estava na retórica, não na prova.

Veja, Globo, Estadão e outros grandes veículos jamais estiveram realmente interessados em investigar a raiz estrutural do problema. Não se tratava de jornalismo investigativo no sentido pleno, mas de ação política mediada pela imprensa. Esses grupos tinham interesses próprios, alinhados sobretudo ao PSDB e a uma visão de poder que via naquele governo uma ameaça.

Quanto mais fragilizado ficasse o governo de Lula, mais fácil seria condicioná-lo, enquadrá-lo e impor limites à sua agenda. Em vez de questionar o sistema de financiamento político como um todo, preferiram personalizar a crise, focar em personagens específicos e vender a narrativa de um escândalo moral absoluto. Assim, preservava-se o modelo estrutural que sempre beneficiara as mesmas forças, enquanto se enfraquecia um governo eleito que tentava, ainda que parcialmente, mudar o eixo de poder no país.

Um exemplo disso, é que nunca surgiram listas consistentes de parlamentares pagos, nem datas, nem valores individualizados, nem vínculo direto entre recursos e votos. O que apareceu foram movimentações típicas de caixa dois, ligadas à publicidade e destinadas a manter partidos aliados, inclusive o próprio PTB de Jefferson. E aí vem o paradoxo, Roberto Jefferson denunciou um sistema do qual ele mesmo fazia parte integralmente, mas contou a história como se fosse uma conspiração unilateral do governo. E a mídia tradicional assinou em baixo.

Há ainda um elemento estratégico decisivo. O escândalo serviu também para eliminar qualquer herdeiro político de Lula. O alvo estrutural era o futuro do poder. José Dirceu era o principal articulador político do governo e o nome mais óbvio para garantir a continuidade do projeto. A personalização do escândalo em Dirceu não foi acidental. Ao destruí-lo politicamente, desmontava-se a sucessão, decapitava-se o comando estratégico e empurrava-se o governo para uma dependência ainda maior do centrão.

No fundo, a lógica é simples e recorrente. Quando não se consegue derrubar um governo nas urnas nem bloquear completamente sua agenda no Congresso, cria-se uma crise moral totalizante. Não para reformar o sistema, mas para retomá-lo. Poder, cargos, controle institucional e veto ao futuro. O chamado mensalão foi menos um grande escândalo institucional e mais uma operação política bem-sucedida, construída sobre meia-verdades, omissões e conveniência. Quando cumpriu seu papel, o sistema permaneceu intacto. No fim das contas, nada foi realmente desmontado. Apenas trocaram-se os protagonistas e ajustou-se o discurso.

A tal limpeza que Lula dizia querer promover morreu na praia, soterrada por conveniências, covardias e pela boa e velha lógica de sobrevivência do sistema. E a ironia maior é que a mídia, que tinha todas as condições de fazer um verdadeiro raio X do problema, expor a engrenagem inteira e apontar o dedo para o centrão como causa estrutural do apodrecimento político, resolveu mirar seu canhão contra o governo. Era mais fácil, mais vendável e politicamente mais rentável. Em vez de condenar o condomínio de partidos que há décadas sequestra qualquer governo, preferiu-se transformar o episódio em uma novela moral com heróis e vilões bem definidos, ainda que mal escolhidos.

O resultado foi previsível. O centrão saiu não apenas ileso, mas fortalecido, mais caro, mais poderoso e ainda mais cínico. Aprendeu que crises morais são oportunidades e que sempre haverá alguém disposto a desviar o foco.

Um exemplo ainda mais escandaloso é o de Michel Temer. O ex-presidente figurava na lista secreta do Escândalo do Propinoduto ligado à Construtora Camargo Corrêa. Nesse processo, foi citado 21 vezes entre 9 de outubro de 1996 e 28 de dezembro de 1998. As quantias atribuídas a ele somavam quase meio milhão de dólares. Ainda assim, Temer sempre encontrava uma porta lateral, um truque jurídico, um passe de mágica processual para escapar de qualquer responsabilização.

E então, como num roteiro de filme B vagabundo, em 2015 ele reaparece travestido de guardião da ética, um paladino da moral pública, um “cidadão acima de qualquer suspeita”, e lidera o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. A situação era tão absurda que equivalia a Al Capone comandar uma cruzada moral contra a venda de bebida alcoólica na Chicago dos anos 30.

Para piorar, o documento que incriminava Michel Temer foi encontrado na residência do diretor da Camargo Corrêa, Pietro Bianchi, durante uma busca autorizada pelo juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Criminal Federal, e realizada pela Polícia Federal.

Mas, como sempre, a memória coletiva brasileira é curta. Em 2015, ninguém mais parecia se importar com esse “pequeno” deslize moral de Temer.

E aí sobra a pergunta inevitável, quase filosófica, no estilo galinha e ovo. Quem veio primeiro, o centrão ou a mídia que o protege, normaliza e recicla escândalos seletivamente. Um alimenta o outro ou apenas fingem brigar enquanto dividem o mesmo banquete.

Isso ficou ainda mais evidente no caso da Lava Jato. Segundo levantamentos divulgados à época, entre cerca de 47 políticos investigados diretamente nas denúncias iniciais, a maioria esmagadora pertencia ao PP, algo em torno de três quartos do total. O PP possuia 31 investigados, e o PMDB, oito.
Ainda assim, a narrativa pública foi construída de forma quase cirúrgica para colar o escândalo exclusivamente no PT, como se o restante do sistema tivesse apenas passado pelo local por acaso.

A seletividade não foi acidental. A cobertura escolheu protagonistas convenientes e ignorou padrões inconvenientes. Em vez de escancarar o funcionamento estrutural do esquema, com seus operadores históricos e partidos especialistas em habitar qualquer governo, preferiu-se vender a história como uma corrupção de partido, não de sistema. Isso simplificava a narrativa, preservava velhos atores e mantinha intacto o coração do problema.

O detalhe quase cômico, se não fosse trágico, veio depois. Passado o furacão moral, o PP emergiu como um dos partidos que mais elegeram representantes. Enquanto o partido mais associado ao noticiário negativo sangrava politicamente, aquele que mais aparecia nas investigações manteve e até ampliou seu espaço. Um milagre eleitoral digno de estudo acadêmico, mas que raramente virou manchete.

O recado foi cristalino. Escândalo não destrói quem domina o sistema. Destrói quem ameaça reorganizá-lo. A mídia cumpriu seu papel seletivo, o eleitor foi conduzido por uma narrativa incompleta e o centrão, mais uma vez, saiu fortalecido. O fato é que, toda vez que o país tenta discutir o problema estrutural, o debate escorrega para o espetáculo. O sistema agradece, o centrão cobra em dobro e a conta, como sempre, sobra para quem ainda acredita que algum dia houve a intenção real de mudar alguma coisa.
Mudam os nomes, mudam os rostos, mas o roteiro permanece. E depois ainda se pergunta por que o Brasil trata corrupção como espetáculo moral e não como problema estrutural.


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