Projeto Tampart


Quando o mar decide devolver tudo

O projeto Tampart nasceu a partir de uma experiência vivida pelo artista plastico Ubiratan Fernandes durante um inverno Uruguaio. Ao caminhar pelas praias nos meses de julho e agosto, o idealizador do projeto se deparou com uma quantidade impressionante de resíduos plásticos espalhados pela areia. Não se tratava de objetos isolados, mas de um volume constante e recorrente de lixo acumulado ao longo da orla.

A presença massiva desses resíduos causou impacto imediato. Diante daquele cenário, parte do material foi recolhida e guardada, quase como um gesto instintivo de não deixar que tudo permanecesse ali, abandonado. Porém, o que parecia um episódio pontual revelou-se um padrão.

Em retornos posteriores às praias do Uruguai, especialmente na região de Rocha e em áreas próximas, a situação se repetia. O lixo continuava chegando. A cada nova visita, novos resíduos apareciam na areia, evidenciando que o problema não era local, nem temporário.

Entre os objetos encontrados estavam fragmentos de monitores de televisão, lâmpadas utilizadas em embarcações e caixas de peixe com inscrições em línguas estrangeiras. Material proveniente da Coreia, da China, do Japão. Tudo indicava que aqueles resíduos haviam percorrido longas distâncias antes de serem devolvidos pelo oceano à costa.

A partir dessa constatação, tornou-se clara a origem do problema. O mar estava devolvendo aquilo que o ser humano descartou de forma irresponsável. Por negligência, falta de educação ambiental ou descarte irregular, enormes volumes de plástico são lançados nos oceanos todos os dias. Em algum momento, esse material retorna.

Esse processo de devolução carrega um simbolismo forte. A natureza não absorve indefinidamente os resíduos humanos. O oceano, longe de ser um espaço sem limites, responde. E sua resposta se manifesta na forma de praias contaminadas por lixo produzido em escala global.

As consequências dessa poluição são profundas e devastadoras. A fauna marinha é diretamente afetada pela ingestão de plástico, pelo aprisionamento em detritos e pela contaminação química. A flora marinha também sofre, assim como os ecossistemas costeiros inteiros. O que chega à areia é apenas a parte visível de um problema muito maior, silencioso e persistente.

O projeto Tampart surge exatamente desse ponto de choque entre observação e realidade. Ele se fundamenta na ideia de transformar resíduos descartados em linguagem, reflexão e alerta. O material recolhido, neste caso, tampinhas de garrafa PET deixa de ser apenas lixo e passa a funcionar como evidência concreta de um sistema de consumo baseado no descarte sem responsabilidade.

Tampart propõe um enfrentamento simbólico e direto. Ao reapresentar esses resíduos ao público, o projeto convida à reflexão sobre origem, percurso e consequências de cada objeto. Nada desaparece quando é jogado fora. Tudo permanece em circulação, ainda que fora do campo de visão.

O mar devolve. O projeto Tampart revela.

Crianças participam colocando tampinhas de garrafas

Um mural pronto

Fachada de escola em Ouro Preto decorada com tampinhas de garrafa.


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