O grande problema racial do Brasil começa com uma invenção tipicamente brasileira: a categoria “pardo”. Essa classificação é unicamente Brasileira e não existe da mesma forma na maior parte do mundo. Tampouco deve ter surgido por acaso.
A função do pardo cumpre uma função muito específica que é diluir a negritude para preservar a ilusão de que o Brasil é um país majoritariamente branco.
Em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e na maior parte da Europa, a lógica racial é brutalmente simples. Branco é branco. Quem não é branco, é negro. Não importa se a pessoa é 1/2, 1/3 ou 1/4% negra. Esta pessoa pode ter a pele mais clara, traços mais suaves ou cabelo menos crespo. Ainda assim, socialmente, não é branca. Não existe essa zona confortável de ambiguidade. A formula é simples: se não é branco, é negro. Ponto final.
O Brasil resolveu fazer diferente. Inventou a categoria “pardo”, criando uma espécie de limbo racial. Com isso, um país onde a soma de negros e pardos ultrapassa os 50 por cento da população, através de um “jeitinho” , se transforma em um “país de maioria branca”.
Pois basta separar os pardos dos negros e a mágica está feita. Sem os pardos, pelo menos no papel, os brancos viram maioria. Na vida real, não.
Na prática social, os pardos ocupam majoritariamente as mesmas regiões que os negros na pirâmide econômica. Salários mais baixos, bairros mais precarizados, maior exposição à violência, menor acesso a educação de qualidade. Ainda assim, existe uma distorção profunda. Pois basta o pardo subir um degrau na escala social, ganhar um pouco mais, ocupar um cargo melhor, para passar a se enxergar como branco. Primeiro porque sua pele é mais clara do que a de muitos negros. Segundo porque ele passa a acreditar que sua nova posição social o isola da negritude.
Só que existe um detalhe incômodo que muitos pardos preferem ignorar. Para os brancos, não só no Brasil como em muitos outros países do mundo, o pardo também é negro. No fim do dia, na lógica racial real, não existe essa distinção confortável. O pardo continua sendo discriminado. Muitas vezes de forma sutil. Outras vezes pelas costas.
No Brasil, basta um pardo sair minimamente do script esperado para que o racismo apareça sem máscara. Um jeito de falar diferente, uma roupa considerada ousada, uma reação mais firme. Imediatamente surgem comentários como “tem um pé na África”, “o gene africano apareceu”, “tem um pezinho na cozinha”. Expressões racistas ditas com naturalidade, quase sempre em ambientes onde os brancos acreditam estar entre iguais.
O paradoxo maior é justamente esse. Muitos pardos, ao ascender socialmente, passam a reproduzir o mesmo discurso racista dos brancos. Fazem piadas sobre negros, discriminam quem tem a pele muito escura, falam como se estivessem fora desse grupo. Agem como se fossem brancos. Como se a cor um pouco mais clara da pele tivesse apagado sua origem. Como se classe social tivesse o poder de embranquecer alguém.
O problema é que os brancos racistas nunca se iludiram com isso. Eles apenas toleram o pardo enquanto ele se comporta, enquanto não lembra a todos de onde veio. Um deslize, uma gíria, uma roupa fora do padrão, um gesto considerado inadequado, e o pardo é rapidamente recolocado em seu “devido lugar”. O recado sempre aparece. Para o racista, o pardo nunca foi branco e nunca será.
Um símbolo cruel dessa lógica está até na linguagem. A própria palavra “mulato” vem de uma associação animalizante, ligada historicamente ao cruzamento de animais. Ou seja, desde a origem, a miscigenação foi tratada como algo inferior, nunca como ponte para a branquitude.
Os Estados Unidos, sem dúvida, são um país profundamente racista. Um dos mais racistas do mundo. E o racismo americano é bem mais explícito e muito mais violento do que o Brasil. Porém lá existe uma diferença fundamental: Não existe ilusão. Nenhum pardo se acha branco. Pessoas que no Brasil seriam chamadas de “morenas”, “clarinhas” ou “meio brancas”, nos Estados Unidos sabem exatamente o lugar que ocupam na hierarquia racial. Não se enganam. Não se escondem atrás de categorias convenientes. Elas se identificam como negras e ponto final.
No Brasil acontece o oposto. Existe uma massa enorme de pessoas que se recusa a olhar no espelho. Fingem que a discriminação não existe ou acreditam que ela só atinge os outros. Ofendem negros sem perceber que estão ofendendo a si mesmos. Acreditam que o racismo é algo distante, dirigido a alguém mais escuro, mais pobre, mais visível.
Talvez isso ajude a explicar por que tantos pardos apoiam políticos abertamente racistas. Eles acreditam que o racismo não os alcança. Que é um problema para os outros. Que sua pele um pouco mais clara funciona como um salvo-conduto. E então votam contra si mesmos. Apoiam discursos que os desprezam, políticas que os excluem, projetos que aprofundam a desigualdade que os atinge diretamente.
O deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP) é um exemplo classico deste tipo de mentalidade, ao ser contra as cotas raciais.
Se Kim Kataguiri tivesse nascido nos Estados Unidos, ele com sua cor de pele escura e olhos de asiatico, teria sofrido o racismo na sua cara. E teria criado uma consciência racial, coisa que ao nascer no Brasil, ele ainda não tem.
Assim que, no fim das contas, o maior triunfo do racismo brasileiro não foi apenas excluir negros das posições de poder. Foi convencer milhões de pardos de que eles não fazem parte do grupo. Foi vender a ilusão de uma branquitude possível, desde que se negue a própria origem.
Talvez aqueles espelhinhos distribuídos quando Cabral chegou, façam falta hoje. Não como símbolo de troca ou submissão, mas como lembrete. Porquê para muita gente, encarar o próprio reflexo na frente do espelho, ainda parece ser o exercício mais difícil de todos.

