O racismo nos altos círculos do poder nos Estados Unidos não é um desvio ocasional de indivíduos isolados. Ele é parte estrutural da formação política do país e aparece, repetidas vezes, nas falas, decisões e prioridades de homens que ocuparam cargos decisivos em Washington.
Um episódio emblemático ocorreu em 1971, quando a Organização das Nações Unidas realizou uma votação histórica que retirou de Taiwan o assento ocupado desde o pós guerra e reconheceu a República Popular da China como representante legítima. Durante a sessão da Assembleia Geral, membros da delegação da Tanzânia celebraram e dançaram. A cena, transmitida pela televisão, provocou a ira do então governador da Califórnia, Ronald Reagan, fervoroso defensor de Taiwan.
Na noite da votação, Reagan tentou falar com o presidente Richard Nixon. Como Nixon dormia, a conversa ocorreu na manhã seguinte e foi gravada. Nela, Reagan descreve os delegados africanos como “macacos” e ironiza o fato de, segundo ele, nem usarem sapatos. Nixon reage com gargalhadas. Não se trata de linguagem ambígua ou interpretação forçada. Trata se de racismo explícito, cru, registrado em fita.
O comentário de Reagan reforçava uma postura já evidente dentro da Casa Branca. Naquele mesmo dia, Nixon ordenou ao seu assessor de segurança nacional que cancelasse reuniões com líderes africanos cujos países não tivessem votado ao lado dos Estados Unidos na questão de Taiwan. A justificativa diplomática pouco importava. O tom era de desprezo racial, expresso quando o próprio Nixon se referiu a líderes africanos como “canibais” vistos na televisão.
Essas falas ajudam a entender a defesa apaixonada de Reagan, anos depois, a regimes de minoria branca como a Rodésia e a África do Sul do apartheid. Durante as prévias republicanas de 1976, Reagan atacou o fato de o governo americano condenar o domínio branco na Rodésia, afirmando que os Estados Unidos não deveriam “ditar” aos povos do sul da África o que fazer. A hipocrisia era clara. Ditaduras raciais eram toleráveis quando protegiam interesses alinhados ao poder branco ocidental.
Nos bastidores do governo Nixon, o racismo não se limitava à diplomacia. Earl Butz, secretário de Agricultura, afirmou ao ator Pat Boone que “os negros só querem três coisas: uma buceta bem apertada; uns sapatos bem frouxos e um lugar quente para cagar.” . Mesmo para os padrões da época, a declaração chocava, mas revelava o grau de naturalidade com que o racismo circulava entre ministros e autoridades.
No Congresso, o discurso não era diferente. Herman Talmadge declarou no plenário do Senado que “Deus defende a segregação racial”.
No Alabama, o governador George Wallace eternizou sua posição com a frase “segregação racial agora, segregação racial amanhã, segregação racial para sempre”.
O senador do Mississippi James O. Eastland afirmou que integrar crianças negras e brancas nas escolas era seguir uma doutrina ilegal, imoral e pecaminosa.
Outro senador por Mississipi, Theodore Bilbo avisou que uma lei contra linchamentos de negros, abriria “as portas do inferno lá no Sul”.
Ou seja o melhor a fazer era permitir que seguissem linchando negros.
Nada disso era um desvio momentâneo. Essa mentalidade remonta aos próprios fundadores da República. Thomas Jefferson escreveu que, “mesmo se todos os negros escravizados fossem libertados, eles deveriam ser deportados, pois negros e brancos jamais poderiam viveriam juntos pacificamente. “
A frase não veio de um extremista marginal, mas de um dos principais autores da Constituição americana.
E quem imagina que esse tipo de discurso pertence apenas ao passado se engana. Em 2006, durante uma campanha eleitoral, o senador da Virgínia George Allen chamou uma voluntária negra de “macaca” diante de uma multidão. A voluntária trabalhava para ele como cinegrafista, e trabalhava de graça.
Esses exemplos expõem uma continuidade histórica. O racismo nos Estados Unidos não sobreviveu apesar de seus líderes políticos, mas frequentemente através deles. Ele moldou políticas externas, sustentou regimes raciais, justificou segregação interna e foi expresso sem pudor em salas fechadas e palanques abertos. Ignorar esse legado é confortável. Enfrentá-lo é essencial para compreender não apenas o passado americano, mas também suas contradições presentes.

