O Culto a Riqueza: A Psicose Coletiva dos Estados Unidos


Chama-se lavagem cerebral.

Em nenhum lugar isso é mais escancarado do que nos Estados Unidos, onde gerações inteiras foram treinadas como cobaias de laboratório para acreditar que os ricos não são apenas pessoas com muito dinheiro, mas sim criaturas superiores, escolhidas, quase como deuses encarnados.
Nenhuma outra nação engole essa fantasia psicótica com tanta devoção beata.

Na Europa, na América Latina ou na Ásia, as pessoas podem até respeitar ou invejar os ricos, mas não cometem a tolice de confundir dinheiro com caráter, nem transformam bilionários em gurus espirituais.

O que realmente separa os Estados Unidos do resto do planeta não é a admiração pela riqueza, mas o ódio sistemático à própria classe trabalhadora e o apagamento completo da ideia de classe social.
Na maior parte do mundo, trabalhadores sabem que são trabalhadores. Simples assim. Se organizam, fazem greve, brigam pelos seus direitos. Tem uma certa consciência de classe. As vezes mínima mas tem.
Nos Estados Unidos, décadas de propaganda da Guerra Fria fritaram a mente coletiva a tal ponto que a consciência de classe em si, virou palavrão, virou sinônimo de comunismo, de traição a pátria, quase até, como se fosse um pacto com o demônio.

E é óbvio que ital experimento, só poderia acabar em desastre. E acabou.
O país virou uma fábrica de consumidores dóceis, incapazes de perceber a própria exploração, convencidos de que não são assalariados mas sim “milionários ainda não ricos.” Para se ter uma idéia, o salário mínimo federal , esta em $7.26 doláres por hora desde 2009. Ou seja, segue o mesmo a 16 anos. Neste mesmo periodo, a inflação esteve em média de 2.5 até 3%. Chegando ao pico de 8% em 2022.
Em 2009, com uma hora de trabalho, um trabalhador americano podia comprar dois Big Macs. Em 2025, com este mesmo salário, mal consegue comprar um.
Uma casa média nos EUA em 2009, custava em torno de 189 mil doláres, hoje em 2025 esta mesma casa, custa em torno de 400 mil doláres. Enquanto o salários permaneceram quase congelados, os preços sobem e o poder de compra encolhe.

Essa ideologia virada do avesso destruiu qualquer traço de solidariedade entre grupos de trabalhadores, e colocou em seu lugar uma ilusão barata e perniciosa.
Em vez de exigir salários decentes, o americano médio prefere sonhar que será o próximo Elon Musk, algo estatisticamente menos provável do que ser atingido por um meteorito durante um eclipse solar.
Em vez de se organizar, a classe média se afunda alegremente em dívidas para manter estilos de vida vendidos pela propaganda corporativa.
O Americano médio deve em torno de 105 mil doláres, o que demoraria mais de 20 anos para pagar.


E não é só ilusão, é quase patologia clínica.
Milhões acreditam piamente que estão a um “golpe de sorte” de virarem bilionários, seguem gurus de internet que prometem riqueza em semanas, embarcam em seitas como a Scientologia que vende “liberdade monetária”, e até religiões protestantes tradicionais viraram quase que franquias de coaching financeiro, com pastores ensinando a ser rico.

Enquanto isso, estes mesmos trabalhadores zombam de sindicatos, desprezam greves e defendem com unhas e dentes as elites que os exploram como gado. Até não muito tempo atrás, as populações de vários estados americanos, votavam felizes em leis tipo “right to work”, que na prática exterminavam sindicatos.
É a síndrome de Estocolmo transformada em política pública.

Quando Jeff Bezos da Amazon, diz abertamente que quer seus funcionários “acordando apavorados todas as manhãs”, a imprensa dos EUA não reage com horror, apenas solta uma risadinha cúmplice e chama de esperteza empresarial.
Na França, no Japão ou na Austrália, uma frase dessas causaria indignação nacional.
Nos Estados Unidos, tratam como piada corporativa.
Alias, o influente blog The Huffington Post publicou que um artigo excelente na qual demonstrava que parte da inflação americana vem da ganância das grandes corporações deste país.

No fim do dia, nada disso é normal. Nada disso é natural. É uma doença cultural exclusiva dos Estados Unidos, uma sociedade tão mergulhada na negação que chama servidão de “liberdade” e venera seus opressores como salvadores.
Um país onde CEOs embolsam milhões enquanto os trabalhadores que fazem tudo funcionar recebem migalhas e, em vez de revolta, oferecem aplausos.

É o capitalismo transformado em carnaval grotesco, onde o público idolatra o mestre de cerimônias e ainda agradece pela honra de levar chicotadas. Não é cidadania, é culto.

Essa ilusão não é global, é uma excentricidade trágica e profundamente americana.

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