O golpe Bolsonarista, ou quando o Exército preferiu o contra-cheque ao Capitão


Sobre o golpe Bolsonarista.

O ex-presidente, em sua aventura mais aloprada, simplesmente ignorou variáveis decisivas. A principal era óbvia para qualquer analista minimamente informado: Estados Unidos, União Europeia e China se recusaram a apoiar qualquer ruptura institucional. Sem o aval desses três atores, qualquer golpe já nasce morto. Mas Bolsonaro, preso mentalmente às políticas da Guerra Fria dos anos 60 e 70, imaginou-se lutando contra “forças comunistas” como um Dom Quixote tropical perseguindo cataventos imaginários.

Quando se falha em interpretar a realidade e se acredita na própria ilusão, o desastre é inevitável. A comunidade internacional, atenta, já demonstrava que preferia a previsibilidade populista de Lula aos devaneios de Bolsonaro, que atuava como palhaço, mágico, malabarista e encantador de serpentes tudo ao mesmo tempo.
Um show que pode divertir a base, mas que afugenta qualquer investidor. E, como bem sabemos, investidor estrangeiro não liga para se o país é capitalista, socialista ou marciano. Ele quer estabilidade. E Bolsonaro, apesar do discurso neoliberal, irradiava instabilidade. Sua incapacidade de lidar com a pandemia foi o retrato disso. Trump e ele inicialmente negaram a gravidade. A diferença é que Trump recuou e colocou Anthony Fauci no comando, e Biden manteve o mesmo especialista ao assumir. Já Bolsonaro jamais reconheceu a pandemia como séria. Virou piada. E instabilidade é a kryptonita do mercado.

Logo após a eleição, Biden reconheceu a vitória de Lula em poucas horas, encerrando qualquer ilusão de questionamento internacional. A União Europeia seguiu o mesmo caminho, assim como Japão, Canadá e praticamente toda a América Latina. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos ainda fez questão de avisar diretamente aos generais brasileiros que qualquer tentativa de “alterar a ordem constitucional” seria inaceitável.

As Forças Armadas brasileiras, extremamente sensíveis à legitimidade internacional, entenderam imediatamente o recado. Sem apoio externo, sem legitimidade interna e sem base legal, qualquer golpe colapsaria de forma fulminante. E as consequências seriam gravíssimas.

Além disso, o Alto Comando do Exército estava dividido. Muitos generais formados na redemocratização dos anos 80 eram e são profundamente legalistas e abominam aventuras institucionais. Para piorar para Bolsonaro, a maior parte da corporação estava mais preocupada em manter seus privilégios do que em arriscar tudo por um capitão aposentado a força. Durante seu governo, receberam aumentos, milhares de cargos, controle sobre ministérios e estatais. E muitos seguiriam mesmo no novo Governo Lula.
O cálculo racional era simples: “Por que arriscar tudo? Bolsonaro sai, mas nossos privilégios ficam.”
E foi isso que aconteceu.

A ironia central é quase cômica: Bolsonaro esperava que os militares agissem espontaneamente. Os militares esperavam que Bolsonaro desse uma ordem explícita.
Ninguém queria assumir o risco.
Criou-se então uma paralisia digna do meme do Homem-Aranha apontando para outro Homem-Aranha. Um esperando o golpe. O outro esperando a cobertura legal para o golpe.
No fim, venceu a inércia, e ninguém se mexeu.
Avaliações internas posteriores foram categóricas: Bolsonaro era “indeciso e esperava que outros assumissem o risco”.
E nenhum general em sã consciência ousaria jogar sua carreira (e pensão) e reputação no lixo para adivinhar os desejos nebulosos de um presidente com uma personalidade dificil e instável.
O incidente entre Sergio Moro e Bolsonaro, abriu os olhos de muitos militares do alto escalão, de que com Bolsonaro, eles praticamente caminhavam sobre cascas de ovos. Eles sabiam que ao redor do presidente, eles tinham que agir com extrema cautela, com delicadeza e cuidado, como se estivesse em um ambiente volatil, para evitar uma explosão emocional do então presidente.

Outro ponto fundamental: as Forças Armadas não queriam repetir 1964. O período deixou cicatrizes profundas. A confiança pública demorou décadas para ser reconstruída.
E, dentro da inteligência brasileira, golpe militar virou sinônimo de república bananeira. Os próprios documentos estratégicos das Forças afirmavam repetidamente: “A intervenção direta gera desgaste institucional profundo.”

A preferência era clara: as forcas armadas deveriam manter influência mas sem governar, sem participar das eleições e sem responsabilidade direta sobre o governo.
Bolsonaro, com sua indisciplina e teorias conspiratórias, apenas desgastava a imagem militar.
E sem unidade no topo, nenhum golpe seria possível.

Na verdade, o termometro dos militares logo mostrou que, logisticamente, o golpe era inviável.
Ao contrário da fantasia bolsonarista, a população não saiu às ruas.
Os governadores não apoiaram, e mesmo os senadores, a o apio era quase mínimo, com raríssimas exceções irrelevantes.
STF, Congresso, elites econômicas e grandes meios de comunicação também rejeitaram a ideia. Muitos políticos de centro, que cresceram com a ditadura, ainda tinham na memoria, que regimes militares começam com promessas e terminam com cassações, arbitrariedades e traições, como ocorreu com figuras que apoiaram 64, entre elas o próprio Carlos Lacerda. A frase que ecoava era simples: “Ditadura todo mundo sabe como começa. Ninguém sabe como termina.”
Os militares de 64 que prometeram eleições livres em 1965, uma vez no poder, prontamente aboliram todos os partidos e extinguiram as eleições diretas.

O último prego no caixão do golpe veio com o reconhecimento internacional imediato após a vitória de Lula. Sem apoio institucional, o golpe virou, nas palavras de um general, “uma aventura profundamente suicida”.

Bolsonaro descobriu horrorizado, que o Brasil de 2022 não era mais nem a sombra do Brasil de 1964.
Uma ruptura constitucuinal, enfrentaria sanções, isolamento, colapso de mercados e até fragmentação interna das próprias Forças Armadas. E os custos cairiam sobre os generais, não sobre Bolsonaro.

Por fim, dentro da caserna, o entendimento geral era óbvio: Bolsonaro queria um golpe para salvar a si mesmo e a sua família, não para proteger o Brasil ou a instituição militar. Ele não apresentou um plano concreto, coalizão política, roteiro pós-golpe ou garantia mínima de governabilidade. Suas propostas eram “vazias”, “improvisadas” e “sem estabilidade”. As Forças Armadas não iriam destruir quarenta anos de reconstrução institucional para atender o capricho de um político que perdeu uma eleição. A mentalidade militar era simples: perdeu esta, trabalhe para ganhar a próxima.

E ainda havia outro detalhe: o PT não controlava Congresso, Senado ou estados-chave. Não havia nenhuma ameaça institucional que justificasse um golpe.

No fim, só Bolsonaro e seu sequito, é que queria o golpe. Os militares queriam preservar seus privilégios, sua imagem e sua autopreservação.

E, nessas condições, a aventura quixotesca de Bolsonaro não tinha a menor chance de dar certo, exceto na cabeça dele e no universo paralelo onde sua base costuma morar.
E, como toda democracia minimamente funcional deixa claro, golpista não recebe absolvição. Recebe processo, humilhação pública e uma vaga cativa no banco dos réus.

E Bolsonaro, ainda tem muita sorte, pois, se estivéssemos no século 19, ele e seu séquito seriam enforcados em praça pública, para toda a população ver.


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