Meu deus, como o Rubão consegue falar tanta bobagem com tanta confiança. É quase um superpoder. Ele segue aquela velha lógica: quem precisa encher a frase com palavrões geralmente é porque falta palavra, falta argumento e às vezes falta até sinapse. É intelectualmente limitado, mas posa de sábio de mesa de bar.
Aí o iluminado anuncia que “na ditadura não tinha corrupção”. Então vamos fazer um favor ao Rubão e trazê-lo de volta ao planeta Terra, mostrando alguns fatos básicos que qualquer estudante do ensino médio conhece – ou que pelo menos conseguiria entender, ao contrário dele.
Para começar: quem era o candidato da ditadura na eleição indireta de 1985? Paulo Maluf, um profissional da corrupção, certificado em mais de um país, procurado pela Interpol e símbolo máximo da roubalheira institucionalizada. Quem era o líder do governo dentro do partido da ditadura? José Sarney, operador veterano da engrenagem fisiológica que sustentava o regime. Quem era o governador mais poderoso dos militares? Antônio Carlos Magalhães, escolhido a dedo pelos generais, e que entrou para a história como uma das figuras mais corruptas e autoritárias do país. Fernando Collor? Filho político direto da ditadura, militante da ARENA e do PDS. Jader Barbalho e tantos outros nasceram da mesma placenta autoritária.
E aí chegamos na parte que o Rubão realmente desconhece, porque exige leitura e memória: a lista interminável de escândalos abafados pela censura e pelo SNI.
Vamos por partes.
O caso das maletas de dinheiro do Golbery, com pacotes de propina circulando no coração do poder. Os desvios bilionários das obras faraônicas de Andreazza, que ficou milionário enquanto construía a Transamazônica. A propina de quatrocentos milhões de dólares cobrada pelo ministro Shigeaki Ueki, denunciada pela revista alemã Der Spiegel. O equivalente hoje a vários bilhões.
Agora, os casos que o Rubão nem sabe pronunciar:
CASO COROA-BRASTEL
Prejuízo de meio bilhão de dólares, equivalente a mais de dois bilhões hoje. Um dos maiores escândalos financeiros da ditadura, fruto de incompetência calculada e corrupção institucional.
CASO DELFIN-BNH
Desvios de cerca de um bilhão de dólares dentro do Banco Nacional de Habitação. O maior escândalo imobiliário da época, com gente do regime até o pescoço.
CASO CAPEMI
A CAPEMI, fundo de pensão militar, desviou trinta milhões de dólares com participação de oficiais, empresários e agentes do SNI. E o jornalista Von Baumgarten, que investigava o caso, apareceu morto. Coincidência? Só na cabeça do Rubão.
CASO BAUMGARTEN
Baumgarten conectava oficiais, empresários e agentes da inteligência. Foi sequestrado, torturado e assassinado. O regime reagiu como sempre: silêncio, censura e nenhuma investigação real.
CASO BANCO ALES
O grande escândalo bancário da ditadura Médici. Desvios próximos a dois bilhões de dólares na época, hoje mais de cinco bilhões. Um saque organizado ao sistema financeiro sob proteção dos generais.
CASO IAA – Instituto do Açúcar e do Álcool
Fraudes em exportação, suborno na liberação de cotas, superfaturamento e contratos fantasmas. O IAA virou sinônimo de corrupção institucionalizada. O rombo foi tão absurdo que o próprio regime precisou desmontar parte do instituto.
CAI – Comissão de Abastecimento e Infraestrutura
Intermediação de licitações milionárias decididas por generais e seus operadores civis. Superfaturamento, contratos direcionados e pagamentos ilícitos em troca de apoio político. Era o mensalão dos militares, só que bilionário e censurado.
CASO POLONOROESTE
Um dos maiores vexames da história do Banco Mundial, que suspendeu repasses após constatar superfaturamento grotesco, desvio de milhões, devastação ambiental, violência contra indígenas e corrupção em todos os níveis. Viramos exemplo internacional de “como não gerir dinheiro”.
CASO ITAIPU
A maior hidrelétrica do mundo à época virou o maior buraco negro financeiro do país. Contratos superfaturados em até trezentos por cento, propinas milionárias, desvios estruturais e acordos secretos com empresas estrangeiras. Itaipu foi o Petrolão da ditadura, só que maior, mais caro e sem investigação.
CASO SUDENE
Empresas fantasmas recebiam incentivos e financiamentos milionários para projetos que nunca saíram do papel. Fazendas inexistentes, fábricas imaginárias, obras fantasmas. Uma lavanderia oficial de dinheiro público.
CASO SUDAN
Versão amazônica da SUDENE: projetos fantasmas, empresas de fachada, incentivos desviados, ausência total de fiscalização e prejuízos de centenas de milhões de dólares. Parlamentares apelidaram a autarquia de “Sudav”, a Superintendência da Aventura.
BANESTADO – O ROMBO QUE COMEÇOU NA DITADURA
O Banestado virou cofre paralelo para políticos, empreiteiras e militares. O rombo atualizado chega a algo entre dois e cinco bilhões de dólares. Empréstimos fraudulentos, renovações fantasmas, operações externas ilegais, triangulações com doleiros, contratos superfaturados e blindagem total do regime. Nada aparecia porque censura e repressão tratavam de calar qualquer denúncia.
FERROVIA DO AÇO – UM BILHÃO DE DÓLARES PARA UMA OBRA QUE NUNCA ANDOU
Prometida como eixo industrial do Brasil, virou um monumento ao desperdício. Túnel sem saída, viaduto que leva a lugar nenhum, trilho desmontado. Um poço sem fundo de superfaturamento, laudos falsos e propina para autoridades do regime. Nunca transportou um único grama de carga.
E ainda tem muito mais:
Fraudes no DNER, corrupção na Telebrás, desvios na CNEN, propinas no Proálcool, contrabando dentro das próprias Forças Armadas, bolsas milionárias para empresários amigos do regime.
E quando alguém tentava denunciar?
A ditadura respondia com censura, prisão, tortura e morte.
Vladimir Herzog, assassinado por mostrar a verdade.
Rubens Paiva, sequestrado e morto por denunciar abusos.
Nove jornalistas do Pasquim presos por fazer humor. Dois meses na cadeia por rir de general.
A OAB? Recebia bomba no escritório.
Um show anti-ditadura? Tentavam explodir, como no Riocentro, onde a bomba explodiu antes e matou os próprios militares envolvidos.
E depois de tudo isso, o Rubão, com seu ar de professor de churrasco, insiste que “na ditadura não tinha corrupção”. Claro, não tinha mesmo. Quando jornalista morre, jornal é fechado, denúncia vira crime e quem expõe o sistema vai parar no cemitério, a corrupção deixa de aparecer. Não porque não exista, mas porque o denunciante deixa de existir.
É por isso que discutir história com alguém como o Rubão é como tentar ensinar física quântica para um galho de árvore. Não adianta. Não funciona. O galho continua ali, balançando ao vento, completamente alheio ao que está acontecendo.

