Groenlândia não corre risco com a Rússia. Corre com os Estados Unidos.


Os Estados Unidos enviaram um governador para a Groelândia.
O que me leva a pensar, que bastaria um simples acordo militar com a Rússia e encerraria toda essa histeria da noite para o dia.

Vamos ser sérios por um momento. A Groenlândia não tem colonos russos que tenham chegado lá séculos atrás. Não tem minoria russa reivindicando agravos históricos. Não há registro de maus tratos a cidadãos russos, nem proibições linguísticas, nem conflitos étnicos, nem uma guerra civil congelada esperando para ser “protegida”. Nenhum dos pretextos usados em outros lugares se aplica, nem de longe.

O que significa que toda a narrativa de pânico desmorona no instante em que Moscou é formalmente neutralizada como fator.

E a Dinamarca não deveria esquecer o seguinte: estamos falando da mesma potência que anexou o Havaí de forma direta. Que tomou metade do México por meio de uma guerra. Que se apoderou de Guam, Porto Rico, Cuba e das Filipinas da Espanha. Que passou décadas em uma guerra fria geopolítica com a Grã Bretanha por causa do Canadá. Isso não é uma anomalia nem uma fase passageira. É um padrão.

O verdadeiro obstáculo, portanto, não é militar. É político. Convencer os três grandes lobos da Europa. Inglaterra, França e Alemanha. Estados que falam a linguagem da soberania, mas congelam sempre que decisões independentes podem gerar atrito com Washington.

E é aqui que está a explicação mais profunda.

Os Estados Unidos não nasceram como uma potência defensiva. Nasceram como um projeto de expansão colonial. Desde seus primeiros anos, seu DNA político foi moldado pela expansão territorial, pela apropriação de recursos e pela crença de que expandir era não apenas inevitável, mas virtuoso. “Destino Manifesto” não foi um slogan. Foi uma doutrina. A fronteira não desapareceu. Ela apenas se deslocou para o exterior.

Ao contrário dos velhos impérios europeus, que colapsaram sob o peso de suas colônias, os EUA converteram o império em sistemas. Bases no lugar de governadores. Rotas comerciais no lugar de bandeiras. Domínio do dólar no lugar do controle direto. Mas a lógica nunca mudou. Controlar o perímetro. Controlar as rotas marítimas. Controlar os recursos. Controlar quem tem permissão para decidir.

É por isso que a tensão muitas vezes é preferida à resolução. Acordos reduzem a alavancagem. Estabilidade limita a intervenção. Um mundo calmo deixa menos espaço para influência.

Esse debate, portanto, nunca avança não porque a paz seja irrealista, mas porque a paz exigiria reconhecer limites. E limites são a única coisa que impérios, antigos ou novos, jamais aceitaram com conforto.

E não podemos esquecer o momento histórico. Washington hoje não está sendo governada como uma república, mas como uma corte. Poder concentrado, decisões personalizadas, instituições dobradas à vontade de um único homem. Um rei absolutista em tudo, menos no título.

Nesse contexto, esperar contenção, humildade ou respeito à soberania de outras nações não é ingenuidade. É delírio. Nesse contexto, a Dinamarca deveria ter muito cuidado. A Groenlândia pode ser perdida da noite para o dia, não para uma invasão russa imaginária, mas para uma anexação americana muito real.

Se isso parece exagero, não é. Trump já enviou um governador para lá para testar o terreno. Só isso já diz tudo o que você precisa saber sobre qual ameaça é hipotética e qual é concreta.

E na guerra existe uma velha regra que nunca sai de moda: o inimigo do meu inimigo é meu amigo.


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