É curioso como o governo sempre encontra dinheiro, pressa e eficiência quando a ferrovia serve para escoar soja, milho e minério. Aí o projeto anda, o licenciamento acelera, o financiamento aparece e a obra vira “estratégica para o país”. Agora, quando o assunto é trem para gente, para trabalhador, estudante, quem pega ônibus lotado todo dia, a conversa muda. Vira “complexo”, “caro”, “inviável”, “não prioritário”. O trem que leva grãos recebe tapete vermelho. O trem que levaria pessoas recebe desculpa. Construir uma segunda linha de trem em Porto Alegre? Vai para a última gaveta. Ampliar um sistema metropolitano minimamente decente? Fica para “um dia”. Um trem ligando São Paulo a Santos, conectando duas das áreas mais densas e economicamente ativas do país? Nem pensar.
E os exemplos se multiplicam. Um trem decente entre Campinas, São Paulo e Sorocaba, eixo industrial e universitário diário de milhões de pessoas, simplesmente não existe. Um sistema ferroviário regional ligando Belo Horizonte ao Vale do Aço, ou BH a Juiz de Fora, é tratado como fantasia. No Nordeste, um trem ligando Recife, João Pessoa e Natal faria mais sentido do que metade das rodovias duplicadas, mas nunca sai do papel. No Sul, uma ligação ferroviária entre Curitiba, Joinville, Blumenau e Itajaí atenderia uma das regiões mais produtivas do país, mas segue ignorada.
No Rio de Janeiro, pensar em um trem intermunicipal eficiente ligando a capital a Volta Redonda, Resende ou Campos dos Goytacazes é quase heresia. No Centro-Oeste, onde o discurso ferroviário é constante, os trilhos só aparecem para levar grão até o porto, nunca para transportar quem trabalha, estuda ou precisa se deslocar diariamente. Um trem rapido entre Brasilia e Goiania, é chamado de delirio.
Na prática, o Estado deixou claro quem vem primeiro. A ferrovia não é pensada como política pública de mobilidade, mas como extensão logística do agronegócio. Serve para aumentar lucro privado, reduzir custo de exportação e inflar discurso de crescimento, enquanto a população continua espremida em ônibus lentos, caros e superlotados. Não é falta de dinheiro. É escolha política. O mesmo governo que financia trilhos de milhares de quilômetros para commodities diz que não há recursos para trens metropolitanos, VLTs ou ligações regionais entre cidades. Curiosamente, o “país do futuro” só pensa em transporte moderno quando é para exportar matéria-prima. No fim, a mensagem é clara: a prioridade não é o cidadão, é a carga.
O Brasil investe em ferrovia como colônia logística, não como nação que se preocupa com mobilidade, tempo de vida e dignidade da sua população. E não importa qual partido esteja no poder. Pois isso vem da mentalidade da elite Brasileira, que é o completo desleixo para com o transporte publico.

