Merval Pereira e a arte de chamar golpe de opinião


Existe um tipo muito específico de personagem no ecossistema político brasileiro: aquele que nunca aparece como golpista, nunca se suja diretamente, nunca defende nada de forma explícita. Ele apenas “analisa”. Apenas “pondera”. Apenas “contextualiza”. E, curiosamente, toda vez que a democracia é colocada sob ataque, esse personagem surge para explicar que talvez não seja bem assim.

Merval Pereira construiu sua carreira exatamente nesse espaço confortável onde nada é dito de forma direta, mas tudo é insinuado. Onde fatos inconvenientes desaparecem, intenções são suavizadas e rupturas institucionais viram mal-entendidos semânticos.

Não se trata de erro jornalístico. É método.

Quando grupos flertam com golpe, Merval não vê golpismo. Vê “radicalização dos dois lados”. Quando instituições são atacadas, ele não vê crime. Vê “excesso retórico”. Quando a democracia é pressionada até o limite, ele não aponta responsáveis. Ele dilui. Ele relativiza. Ele confunde.

É o velho truque: transformar o agressor em “ator político controverso” e a vítima em “parte do conflito”. Nada mais eficaz para normalizar o inaceitável.

O mais curioso é a seletividade cirúrgica. O rigor analítico só aparece quando o alvo é um governo eleito que desagrada interesses históricos. Aí não há contexto, não há atenuante, não há dúvida. Já quando o ataque vem de quem sonha abertamente com ruptura institucional, o vocabulário muda. O tom amolece. A crítica evapora.

Isso não é jornalismo. É engenharia narrativa.

Merval não informa para que o leitor compreenda a realidade. Ele organiza os fatos para que a realidade caiba dentro de uma conclusão pré-fabricada. É um jornalismo que não busca esclarecer, mas conduzir. Não busca revelar, mas enquadrar. Não busca verdade, mas aceitabilidade.

E tudo isso sempre sob o disfarce da sobriedade, do “centro responsável”, do analista experiente que supostamente está acima da briga. Acima de tudo, menos acima da ideologia que orienta cada linha escrita.

Esse tipo de atuação é particularmente nocivo porque não grita. Não convoca multidões. Não quebra vidraças. Ele age de forma mais eficiente: naturaliza. Faz o absurdo parecer discutível, o criminoso parecer exagero e o golpe parecer apenas mais uma opinião no mercado de ideias.

A história mostra que democracias raramente morrem apenas pela força. Elas morrem quando gente bem vestida, bem paga e bem posicionada começa a explicar que talvez o ataque à democracia não seja tão grave assim. Que talvez o problema esteja no “tom”. Que talvez seja tudo uma questão de narrativa.

Quando o jornalismo abandona o compromisso com a realidade factual para servir de amortecedor moral de golpistas, ele deixa de ser imprensa e passa a ser cúmplice. Não por ação direta, mas por omissão calculada.

E isso é ainda mais perigoso.



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