Não sou nem de longe kirchnerista. Aliás, nem sequer moro na Argentina. Moro nos Estados Unidos. Isso, porém, não me transforma automaticamente em um ignorante de história, nem me autoriza a fingir uma amnésia seletiva quando os fatos se tornam incômodos.
Qualquer pessoa minimamente informada que tenha acompanhado a crise argentina de 2000 e 2001 sabe muito bem que foi a partir de Néstor Kirchner que a Argentina conseguiu se levantar de um colapso monumental. Um colapso real, daqueles que fazem a crise atual parecer uma simples brisa quando comparada ao furacão que varreu o país no início dos anos 2000.
Estamos falando de um período em que a Argentina literalmente perdeu o controle do Estado. Em dezembro de 2001, o país declarou um calote massivo de sua dívida, em torno de 93 bilhões de dólares, o que desencadeou uma crise política sem precedentes. Foram cinco presidentes em apenas onze dias, um nível de instabilidade institucional que beira o absurdo histórico. Algo que nem mesmo a Bolívia, com sua longa e conhecida história de golpes de Estado, chegou a experimentar nesse grau de caos concentrado.
Naquela época, não se falava em “risco de recessão”, como hoje se tenta suavizar o vocabulário. A Argentina estava mergulhada em uma verdadeira depressão econômica. Em 2002, o PIB despencou quase 11 por cento, o desemprego explodiu, os bancos colapsaram, as poupanças foram confiscadas e a pobreza atingiu cerca de 57 por cento da população. O tecido social se rompeu. Foi um cenário de falência nacional, econômica, política e simbólica.
E é fundamental deixar algo muito claro: nenhuma parte da crise de 2000 e 2001 teve qualquer relação com uma suposta “esquerda”. Ela foi o resultado direto de políticas neoliberais aplicadas durante os governos de Menem e seu entorno, com privatizações selvagens, endividamento externo, desindustrialização e uma paridade cambial artificial e insustentável. E de um endividamento que vinha de longe. Por exemplo a divida externa argentina, durante a ditadura militar , aumentou quase 6 vezes. Passou de 8 bilhões em 1976 para 46 bilhões em 1983. Um aumento de 38 bilhões em apenas sete anos.
Já no governo neo-liberal de Menen, a divida aumentou ainda mais, pois passou de 65 bilhões para 148 bilhões, ou seja em apenas 10 anos, houve um aumento de 83 bilhões.
E esta políticas, aliás, não são muito diferentes das que Milei aplica hoje, embora essa comparação incomode muita gente. A divida Argentina que em 2023, quando Milei começou a governar, estava em 276 bilhões. Hoje apenas dois anos depois esta em 316 bilhões. Um aumento de 40 bilhões. Em apenas dois anos ele ja superou o recorde dos militares.
Assim que ignorar esse contexto histórico para fazer análises rasas ou ideológicas não é opinião. É desinformação. Discordar do kirchnerismo é legítimo e saudável. Apagar o papel que Kirchner teve na reconstrução do país após uma das maiores crises da história argentina não é crítica séria. É simplesmente negar a realidade e passar atestado de burrice ou de desonestidade política.

