Juros para rentistas, silêncio da mídia e estatais a preço de banana: a negociata que se repete ano atras ano.


Barão de Itararé já tinha resolvido o assunto há décadas ao definir “negociata” como um grande negócio para o qual não fomos convidados. Nada mais atual.

Negociata também é o silêncio constrangedor da grande mídia quando o tema são os juros da dívida. Aí não tem indignação, não tem breaking news, não tem painel com gráfico piscando. Grilos.
Agora, se uma estatal dá prejuízo, a solução aparece instantânea, quase automática: é só se desfazer dela. Simples assim.

É curioso observar como funciona esse silêncio seletivo. Quando o assunto são os juros da dívida, que já ultrapassam os 900 bilhões de reais por ano, a CNN ou a Globo simplesmente emudecem. Nenhum especial, nenhuma mesa redonda, nenhum economista “preocupado com o futuro do país”. Nada. Um silêncio cirúrgico.

Novecentos bilhões por ano. Para dimensionar o escândalo, esse valor daria para financiar algo em torno de 45 linhas de metrô em São Paulo. Quarenta e cinco por ano. Dinheiro suficiente para construir 8 linhas de trem bala de 400kms e por ano.
Imagine uma mobilidade de primeiro mundo, ganho real de produtividade, impacto estrutural na economia. Mas isso não vira pauta. Não rende manchete. Não interessa.

Talvez o silêncio tenha explicação. Talvez seja porque os donos dessas empresas de mídia também sejam rentistas, assim como boa parte da Faria Lima. Gente que vive muito bem justamente desse fluxo permanente de juros. Nesse caso, não é distração nem ignorância. É conflito de interesse. E o silêncio deixa de ser estranho para se tornar quase ensurdecedor.

Aí entra o segundo ato do roteiro. Para tirar o foco desse ralo bilionário, despejam matérias em série dizendo que estatais dão prejuízo, são ineficientes, “pesam no orçamento”. Hoje, amanhã, depois de amanhã. Sempre o mesmo enquadramento, sempre os mesmos comentaristas, sempre a mesma ladainha.

De tanto repetir, uma parte dos otários começa a pedir privatização por conta própria, achando que teve uma ideia genial. A estatal, sucateada de propósito, é vendida a preço de banana. E quem fica com o ativo são exatamente os mesmos grupos que lucram com juros altos e com a narrativa.

Depois, como num passe de mágica, o prejuízo desaparece. Não porque ficou mais eficiente, mas porque a conta passa a ser cobrada direto do consumidor. Tarifas sobem, serviços pioram, lucros explodem. E ainda chamam isso de modernização.

Esse filme é velho. O problema é que muita gente continua fingindo que é estreia.


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