Generais Comprados, Silêncio Global e Petróleo: Como a Venezuela Foi Entregue Sem Um Tiro


No fim das contas, o que ficou evidente é que uma parcela significativa do alto comando militar venezuelano já estava comprada. A prova disso é simples e constrangedora: não houve absolutamente nenhuma resistência. Nenhuma. Em comparação, Panamá e Granada, países muito menores e infinitamente mais frágeis militarmente, ao menos tentaram se defender.

Na invasão do Panamá, morreram 23 soldados americanos e mais de 300 ficaram feridos.
Na invasão de Granada, 24 soldados dos EUA morreram e nove helicópteros foram derrubados.

Ou seja: houve combate, houve custo, houve resistência.

Venezuela, por outro lado, possui um exército muito maior, mais bem equipado, com anos de investimentos, treinamento e doutrinação política. Ainda assim, foi invadida praticamente “do nada”, sem reação relevante. Isso não acontece por acaso. Para um país desse porte cair dessa forma, é praticamente inevitável concluir que parte do oficialato militar fechou um acordo prévio com o governo dos Estados Unidos, em troca de garantias: manutenção de cargos, preservação de privilégios e a indicação de um governo fantoche aceitável a Washington.

A própria declaração pública de Donald Trump, em coletiva de imprensa, dizendo que María Corina Machado “não tem o respeito do povo venezuelano”, é reveladora. Essa fala indica que o roteiro já estava escrito e que certos nomes já haviam sido descartados antes mesmo do espetáculo público começar. Quando o presidente dos EUA fala assim, não é improviso: é sinal de que o acordo já estava costurado nos bastidores.

Mais revelador ainda é o silêncio quase absoluto de China e Rússia. Para dois países que tradicionalmente reagiriam com dureza a uma operação desse tipo, a resposta foi mínima, protocolar, quase burocrática. Isso sugere fortemente que ambos foram informados com antecedência, receberam garantias estratégicas e decidiram não comprar a briga.

Vale lembrar que Hugo Chávez havia redesenhado profundamente as Forças Armadas venezuelanas justamente para torná-las “à prova de golpe”. Criou-se uma estrutura com algo em torno de 800 generais, muitos deles sem comando direto de grandes contingentes. A lógica era clara: impedir que bastasse “cortar a cabeça” de um único general poderoso para derrubar o governo.

Além disso, muitos desses generais são relativamente jovens. Portanto, para que todo o aparato militar tenha ficado paralisado ao mesmo tempo, sem qualquer iniciativa autônoma, sem focos de resistência, sem divisões internas visíveis, só há uma explicação plausível: houve um acordo coletivo no topo da hierarquia.

E esse acordo, ao que tudo indica, teve o aval do próprio Nicolás Maduro. Não é coincidência que sua esposa também tenha sido levada. Esse tipo de gesto não acontece em operações improvisadas ou caóticas. Ele aponta para uma transição negociada, com cláusulas, garantias pessoais e compromissos assumidos antecipadamente.

Em resumo: o colapso não foi militar. Foi político, negociado e silencioso. E justamente por isso, tão revelador.

E no meio desse rearranjo todo, fica impossível ignorar quem saiu ganhando mais do que todos: a Exxon Mobil. Com a mudança de cenário político e a reabertura negociada do país, a Exxon simplesmente volta para a Venezuela, recuperando acesso a algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, especialmente na Faixa do Orinoco.

Nada disso é coincidência. A Exxon havia sido a grande derrotada no passado, quando perdeu espaço enquanto outras petroleiras estrangeiras, inclusive concorrentes americanas, permaneceram operando no país sob acordos específicos. Agora, com o novo arranjo de poder e as garantias políticas adequadas, o tabuleiro foi reorganizado a seu favor.

No fim do dia, enquanto se vende ao público um discurso moral, democrático ou humanitário, o resultado concreto é outro: o petróleo voltou ao centro da equação e a Exxon Mobil reaparece como a principal vencedora dessa operação silenciosa. Em geopolítica, como sempre, ideologia é retórica. POrque no fim do dia, nos EUA, dependentes de petroleo, quem controla energia é quem manda .


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