Dois pesos e duas medidas: a palavra “regime” e a TV Globo:


A Globo e sua eterna tática de dois pesos e duas medidas.

Na Venezuela, Maduro é sempre o “ditador”, e a Venezuela, “o regime Venezuelano”.
Já no Egito, que é infinitamente menos democrático que a Venezuela, onde o último presidente eleito foi derrubado por um golpe militar e morreu dentro de uma prisão, a Globo se refere ao chefe do regime com toda a solenidade como “presidente do Egito”.

A Arábia Saudita é um capítulo à parte, esse suposto “farol iluminado da liberdade”. Lá, a palavra democracia não aparece na Constituição porque o país sequer tem Constituição. Democracia, menos ainda. É o mesmo regime que esquartejou um jornalista dentro de sua embaixada na Turquia. Ainda assim, na Globo, o líder do país é tratado com carinho institucional como “príncipe saudita”.

Os Emirados Árabes seguem a mesma lógica. Nenhuma eleição, zero oposição. Jordânia, Marrocos, Paquistão, Uganda, Camboja, Camarões e a lista é longa. Todos com imprensa censurada, opositores na cadeia, regimes fechados e autoritários. E nenhum, absolutamente nenhum, tem seus líderes chamados de ditadores pela Globo.

Vejam o Qatar, sede da Copa do Mundo de 2022. Uma ditadura total.
Sistema político: monarquia absoluta hereditária.
Chefe de Estado: o emir, com poder quase total.
Eleições nacionais: inexistentes para o governo central.
Partidos políticos: proibidos.
Oposição organizada: inexistente.
Imprensa: fortemente controlada pelo Estado.
Parlamento: um pequeno Conselho Consultivo, a Shura, cujos membros são escolhidos pelo próprio emir.

Antes, durante ou depois da Copa, alguém viu a Globo chamar o emir de ditador ou falar em ditadura do Qatar? Não.
O motivo é simples. O Qatar é aliado dos Estados Unidos. Portanto, não importa o quão ferrenha seja a ditadura, você jamais verá na Globo as palavras Qatar e ditadura juntas.

No fim das contas, a régua da democracia muda conforme o alinhamento político e os interesses estratégicos. A palavra “ditadura” não descreve regimes. Ela escolhe alvos.

Todos são tratados como “normais” porque são aliados dos Estados Unidos. Simples assim.
E a Globo, com sua eterna deferência aos interesses de Washington, chama de ditadores apenas os inimigos dos EUA. Já os aliados recebem um tratamento higiênico, quase protocolar. Não são ditadores. São apenas “líderes”, “presidentes”, “príncipes”.

Não importa se não há eleições, se a oposição está na cadeia, se a imprensa é censurada ou se o regime governa por decreto. Se está alinhado aos EUA, vira um governo legítimo aos olhos da Globo. Se não está, entra automaticamente no pacote retórico de “ditadura”, “autoritarismo” e “ameaça à democracia”.

E aí entra o detalhe que convenientemente nunca é discutido. A relação histórica, política e financeira entre a mídia brasileira e a Embaixada Americana. Cursos, “parcerias”, convites, treinamentos, alinhamento editorial e aquela proximidade permanente que nunca é chamada pelo nome. O resultado aparece no vocabulário do Jornal Nacional. Inimigos dos EUA são ditadores. Aliados são apenas líderes, independentemente do nível de repressão que pratiquem.

No fim, não é jornalismo. É alinhamento geopolítico.
A régua muda conforme o lado. Os inimigos são demonizados. Os aliados são normalizados.
E assim segue a farsa dos dois pesos e duas medidas, repetida diariamente como se fosse informação neutra. Que alias se for investigar, os jornalistas que usam essas expressões devem ter uma conexão com a Embaixada Americana em Brasilia.


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