Nos anos 80, quando o Japão já era a segunda maior economia do mundo e tudo indicava que em pouco tempo ultrapassaria os Estados Unidos, veio o freio de mão puxado de fora. Sob forte pressão americana, o Japão foi obrigado a assinar os Acordos do Plaza. O resultado foi devastador. A valorização forçada do iene destruiu a competitividade da indústria japonesa, inflou uma bolha especulativa e jogou o país em quase duas décadas de estagnação econômica. Não foi acidente de mercado, foi decisão política imposta pelo centro do poder global para conter um concorrente que estava ficando grande demais.
E é bom lembrar de outra coisa que muita gente finge não ver. Japão, Coreia do Sul e Taiwan só cresceram daquele jeito porque existia a Guerra Fria. Eles não eram exemplos espontâneos de livre mercado. Eram vitrines estratégicas. Os Estados Unidos obrigaram países ocidentais a investir pesado nesses lugares para provar ao mundo que o capitalismo funcionava melhor do que o socialismo. Era crescimento patrocinado, protegido e direcionado. Não era mérito isolado nem milagre econômico liberal.
No caso da Coreia do Sul isso fica ainda mais escancarado. Quando o país quase quebrou durante a crise da dívida externa e dos juros altos que devastou o chamado Terceiro Mundo nos anos 80, os Estados Unidos intervieram de forma indireta. Pressionaram o Japão a pagar uma indenização bilionária à Coreia do Sul pelas mulheres coreanas usadas como escravas sexuais pelo exército japonês na Segunda Guerra. Esse dinheiro ajudou a salvar a economia coreana naquele momento crítico. Se o Brasil tivesse recebido um favor geopolítico desse tamanho, talvez a crise dos anos 80 aqui nem tivesse sido tão profunda.
Mas nada disso foi feito por bondade ou senso de justiça histórica. Os Estados Unidos apoiavam uma ditadura brutal na Coreia do Sul e tinham pavor de duas coisas. Que uma abertura democrática levasse à reunificação com o Norte ou que um governo eleito exigisse a retirada das tropas americanas da península. Ou seja, mais uma vez, interesse estratégico puro e simples.
Então não, os Estados Unidos não são amigos de ninguém. País nenhum. Você até pode se beneficiar hoje, enquanto serve aos interesses deles, mas amanhã a conta chega. Sempre chega. A China está vivendo isso agora, com sabotagens comerciais, tecnológicas e financeiras explícitas. Veja o que o Trump faz com a Dinamarca, com o Canadá ou com o Panamá, países que historicamente fazem exatamente tudo o que Washington pede. Nem isso garante respeito ou lealdade.
Portanto, para os desinformados ou para quem ainda acredita em conto de fadas geopolítico, fica a lição. Os Estados Unidos não têm amigos. Têm interesses. E quando esses interesses mudam, não importa quem você seja, a faca vem do mesmo jeito.

