O golpe militar de 1964 no Brasil costuma ser explicado de forma superficial como uma reação automática ao “perigo comunista” representado por João Goulart. Essa leitura é confortável, mas intelectualmente pobre.
Ela ignora processos políticos internos de longa duração, disputas de poder mal resolvidas desde 1930, conflitos dentro das Forças Armadas e uma conjuntura internacional profundamente contaminada pela Guerra Fria. O golpe não foi um raio em céu azul. Foi o resultado de camadas acumuladas de tensão.
1. Cuba, a URSS e a paranoia americana
A Revolução Cubana de 1959 mudou radicalmente o comportamento dos Estados Unidos na América Latina. Pela primeira vez, um país do hemisfério ocidental havia rompido com Washington e se alinhado diretamente à União Soviética. Para a elite política e militar americana, aquilo não era apenas um problema regional, era uma ameaça estratégica existencial.
A partir daí, qualquer movimento reformista, nacionalista ou minimamente autônomo na América Latina passou a ser interpretado como um possível “novo Cuba”, mesmo quando não tinha nada de marxista. Reformas agrárias, controle de remessa de lucros, fortalecimento de estatais, política externa independente, tudo virava automaticamente “sinal vermelho”.
O Brasil, por seu tamanho, população, peso econômico e liderança regional, era visto como peça-chave no tabuleiro continental. Um Brasil fora da órbita americana não era tolerável. A paranoia não se baseava em fatos concretos sobre uma revolução comunista iminente, mas em projeções ideológicas. Isso explica o apoio direto e indireto dos EUA a setores civis e militares que conspiravam contra Jango, inclusive com logística, inteligência e sinalizações claras de que um golpe seria bem-vindo.
Não se tratava apenas de ideologia. Tratava-se de controle geopolítico, investimentos, acesso a recursos, influência estratégica e contenção simbólica da URSS.
2. A incapacidade eleitoral da UDN e a hegemonia getulista (1930–1964)
Outro fator pouco enfatizado é o bloqueio político vivido pela UDN. Desde 1930, o Brasil esteve sob hegemonia direta ou indireta do campo getulista. Primeiro com Getúlio Vargas no poder, depois com seus herdeiros políticos organizados principalmente no PTB e no PSD. Mesmo quando Vargas saiu, sua lógica política permaneceu.
A UDN simplesmente não conseguia vencer eleições nacionais de forma consistente. Perdia no voto, mas mantinha enorme influência na imprensa, no empresariado urbano, em setores da classe média e, sobretudo, nas Forças Armadas. Isso gerou um vício político: quando não se ganhava nas urnas, buscava-se a solução fora delas.
Esse padrão já havia se manifestado antes: tentativas de impedir posses, movimentos conspiratórios, campanhas de deslegitimação permanente. João Goulart, herdeiro direto do trabalhismo getulista, herdou também esse cerco político. Ele governava sob constante sabotagem institucional, pressão midiática e resistência aberta de elites que nunca aceitaram plenamente a democracia quando ela não produzia o resultado desejado.
O golpe de 1964, nesse sentido, não foi apenas ideológico. Foi também uma solução autoritária para uma elite política que não conseguia vencer eleições e que não aceitava a hegemonia popular construída desde os anos 1930.
3. O anti-getulismo nas Forças Armadas e a crise de hierarquia
As Forças Armadas nunca foram neutras nesse processo. Desde os anos 1940, havia um forte anti-getulismo no oficialato, simbolizado por figuras como o brigadeiro Eduardo Gomes e por uma cultura institucional que associava o trabalhismo ao “populismo”, à indisciplina e ao risco de politização das massas.
Esse ressentimento histórico se combinou com uma crise real de hierarquia no início dos anos 1960. A greve dos sargentos e a revolta dos marinheiros romperam um tabu fundamental da estrutura militar: a disciplina vertical absoluta. Para muitos oficiais, aquilo foi interpretado como sinal de descontrole, infiltração ideológica e ameaça direta à autoridade militar.
João Goulart, ao adotar uma postura conciliadora com esses movimentos, foi visto por parte da oficialidade como alguém que estimulava a quebra da hierarquia. Independentemente da intenção real de Jango, a percepção dentro dos quartéis era de que o governo estava perdendo o controle da cadeia de comando. Isso alimentou o discurso de “restauração da ordem”, que serviu como justificativa moral para a intervenção.
Outros fatores frequentemente ignorados
Além desses três pilares, há elementos menos discutidos que ajudam a entender o golpe:
• O medo das reformas estruturais. As chamadas “reformas de base” ameaçavam interesses concretos: latifúndio, remessa de lucros, privilégios fiscais, concentração fundiária e dependência externa. Não era ideologia abstrata, era bolso, poder e estrutura econômica.
• A fragilidade institucional da democracia brasileira. A República brasileira sempre conviveu mal com alternância real de poder. Golpes, quarteladas e soluções de exceção eram quase normalizadas. A democracia ainda não estava consolidada como valor cultural.
• A atuação ativa da grande imprensa. Boa parte dos grandes jornais e rádios operou como agente político, criando clima de pânico, deslegitimando o governo diariamente e preparando a opinião pública para aceitar uma ruptura institucional como “salvação nacional”.
• A fragmentação da esquerda. O campo progressista também estava dividido, com discursos muitas vezes maximalistas, pouca coordenação estratégica e dificuldade de leitura da correlação real de forças, o que facilitou a ofensiva conservadora.
• A ilusão de um golpe “corretivo e temporário”. Muitos civis que apoiaram a deposição de Jango acreditavam ingenuamente que seria apenas uma intervenção breve para “organizar a casa”. Subestimaram completamente a lógica autoritária que se instalaria por 21 anos.
Conclusão
O golpe de 1964 não foi produto de um único fator. Ele nasce da convergência entre a paranoia geopolítica americana pós-Cuba, a frustração eleitoral crônica da elite udenista, o anti-getulismo entranhado nas Forças Armadas, uma crise de autoridade militar, interesses econômicos ameaçados e uma democracia institucionalmente frágil.
