Por que no Brasil o trem nunca chega na porta do aeroporto


Sobre o monotrilho em Congonhas e o trem em Guarulhos.

O Brasil se especializou em fazer obras “nas coxas”. Obras bonitas na maquete, caras no orçamento e medíocres na vida real. Obras que impressionam em foto aérea, mas fracassam no uso cotidiano. Obras que não servem ao cidadão, servem ao contrato, ao cronograma político, ao jogo de interesses.

Nada simboliza melhor esse fracasso do que os trens que não chegam dentro dos aeroportos.

Em qualquer país que leva infraestrutura a sério, isso nem é discussão. O trem entra no aeroporto. O metrô para na porta do terminal. A integração é direta, lógica, eficiente. É assim na Europa. É assim no Japão. É assim em Chicago, Toronto, Vancouver, Dallas, Amsterdã, Londres, Tóquio. O passageiro desce do vagão e está no check-in. Simples. Racional. Civilizado.

No Brasil, não.
Aqui sempre falta “um pedaço”.

O trem chega perto. Quase. A alguns quilômetros. A algumas quadras. A uma passarela interminável. A uma baldeação desnecessária. E para tapar esse erro de projeto, inventa-se uma segunda obra, um puxadinho institucionalizado: aeromóvel, shuttle, ônibus interno, esteira interminável. Mais custo, mais manutenção, mais risco de falha, mais tempo perdido para o usuário.

Não é acidente. Não é falta de tecnologia. Não é falta de dinheiro. É falta de projeto. É falta de visão. É a cultura da obra fragmentada, onde cada contrato cuida apenas do seu pedaço e ninguém é responsável pelo sistema como um todo.

Desviar o traçado do trem alguns metros para entrar no aeroporto resolveria o problema. Mas isso exigiria coordenação, coragem técnica e enfrentamento de interesses. Dá trabalho. Dá conflito. Então opta-se pelo atalho burocrático: cria-se um novo contrato, uma nova licitação, uma nova obra para corrigir um erro que nunca deveria ter existido.

Guarulhos fez isso. Porto Alegre fez isso. Agora Congonhas repete o mesmo roteiro. O erro virou padrão. A gambiarra virou política pública.

O passageiro vira figurante.
Quem carrega mala vira obstáculo.
Quem tem conexão vira estatística.

Enquanto isso, os discursos oficiais falam em modernidade, inovação, mobilidade inteligente, cidade do futuro. Mas o futuro nunca chega, porque o básico não é resolvido.

Uma obra pública não é escultura. Não é monumento. Não é peça de marketing político. Infraestrutura serve para funcionar, integrar, facilitar a vida real das pessoas. Quando ela não faz isso, ela falhou, por mais bonita que seja.

Este manifesto é contra a normalização do improviso caro.
Contra a estética da gambiarra de luxo.
Contra o vício de construir mal e corrigir pior.

Queremos projetos completos.
Queremos integração real.
Queremos que o trem chegue na porta do aeroporto, não no bairro ao lado.

Chega de obra nas coxas.
Chega de país que aceita pouco como se fosse muito.
Infraestrutura não é favor, é obrigação.


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