O Brasil interrompido
Ao final do século XIX, o Brasil era, por qualquer critério sério, uma potência regional em ascensão. Sua marinha figurava entre as mais respeitadas do mundo, tecnologicamente equiparável à dos Estados Unidos. A economia era vigorosa, movida pelas exportações e integrada às grandes correntes do comércio internacional. O sistema político, apesar de suas imperfeições, operava com relativa estabilidade institucional. E o imperador era visto como um estadista culto, racional, atento ao tempo longo da construção de uma nação. O Brasil não apenas existia. Consolidava-se como um projeto nacional coerente.
Esse percurso foi abruptamente interrompido em 1889. A elite paulista, em especial os barões do café, ansiosa por ampliar seu poder econômico e político, convenceu os militares a derrubar a monarquia e implantar uma república desenhada à imagem de seus interesses. Não surgiu uma república cívica moderna, mas uma federação fragmentada, um mosaico de províncias semi independentes, cada qual com seus próprios exércitos, redes de clientelismo, oligarquias locais e disputas regionais. O planejamento nacional dissolveu-se num instinto de sobrevivência provincial. A ideia de Brasil como projeto civilizatório de longo prazo foi, na prática, abandonada.
A fragmentação chegou a níveis quase caricatos nas décadas de 1910 e 1920, quando estados passaram a guerrear entre si. A Guerra do Contestado expôs a fragilidade da autoridade federal e a incapacidade do poder central de impor ordem institucional. Pouco depois, São Paulo levantou-se em confronto aberto contra a União na Revolta Paulista, comportando-se menos como parte de uma federação e mais como uma potência soberana rival. Em vez de investir na consolidação de instituições, infraestrutura e coesão nacional, o país consumia suas energias lutando contra si mesmo. O Brasil passou a se parecer mais com uma confederação frouxa de territórios concorrentes do que com uma nação unificada e consciente de seu destino.
Somente nos anos 1930 o país tentou reencontrar uma direção sob Getúlio Vargas. Figura profundamente ambígua, Vargas foi simultaneamente modernizador autoritário, populista e nacionalista industrializante. Seus adversários o acusavam de ser uma mistura de Mussolini, Stalin e Roosevelt, não sem certa ironia histórica. Seu projeto incorporava traços de planejamento estatal, centralização administrativa e intervenção desenvolvimentista. Seus métodos eram frequentemente duros, por vezes repressivos. Mas Vargas recolocou no centro uma ideia essencial: sem industrialização, infraestrutura, organização do trabalho e coordenação nacional, o Brasil permaneceria prisioneiro da improvisação regional e do atraso estrutural.
Em um gesto simbólico extremo, Vargas promoveu uma cerimônia pública na qual as bandeiras de todos os estados foram queimadas numa única fogueira monumental, afirmando o fim da autonomia provincial e a retomada da autoridade nacional centralizada. Era um rito de ruptura, quase teatral, mas carregado de mensagem política. O país precisava deixar de ser uma soma de feudos e passar a se pensar como corpo único.
Esse impulso amadureceu sob Juscelino Kubitschek. Seu governo apostou na industrialização, no investimento pesado em infraestrutura e na integração simbólica do território, materializada na construção de Brasília. Por um breve intervalo histórico, o Brasil voltou a ensaiar a possibilidade de se tornar uma nação moderna, coesa e dotada de ambições de longo prazo. Mas o experimento foi violentamente interrompido pelo golpe militar de 1964. A ditadura congelou a vida democrática, distorceu prioridades econômicas, submeteu o desenvolvimento à paranoia ideológica e à dependência geopolítica, e paralisou o país por mais de duas décadas. O saldo foi um Estado enfraquecido, instituições corroídas e uma economia deformada.
A tentativa mais recente de reconstruir um projeto nacional emergiu com o Partido dos Trabalhadores e Lula. Ainda assim, esse ciclo também nasceu marcado por ambiguidades. Em certos momentos, o governo opera como um Estado desenvolvimentista preocupado com infraestrutura, inclusão social e soberania. Em outros, inclina-se à lógica neoliberal, privatizando ativos estratégicos e diluindo objetivos de longo prazo. Essa oscilação não é apenas ideológica, mas estrutural.
O PT governa apoiado por uma coalizão extremamente ampla, que vai da esquerda radical ao centro pragmático e à direita fisiológica. Cada grupo disputa espaço, orçamento, ministérios e influência. A governabilidade transforma-se numa negociação permanente. Como ironizou certa vez a revista The Economist, numa semana Lula parece socialista, na seguinte neoliberal, dependendo de quem precisa ser agradado. O resultado é uma erosão da continuidade das políticas públicas, o enfraquecimento da memória institucional e a inviabilização de qualquer planejamento profundo e estável.
Desde a queda da monarquia, o Brasil nunca conseguiu sustentar uma estratégia nacional capaz de atravessar ciclos eleitorais e alternâncias de poder. Cada governo desmonta o que o anterior construiu, como se a história precisasse sempre recomeçar do zero. Em vez de aperfeiçoar estruturas, prefere-se demolir e improvisar. Governos como os de Temer e Bolsonaro cristalizaram esse vazio, apostando na desarticulação institucional, no espetáculo ideológico, na liquidação de ativos estratégicos e na submissão acrítica a interesses externos.
A tragédia brasileira não está na falta de recursos, território, população, talento ou potencial histórico. A tragédia reside na ausência crônica de maturidade institucional e visão estratégica. Nenhuma nação se consolida quando cada ciclo político reinicia o relógio, abandona projetos de longo prazo e trata o Estado como um troféu transitório, não como uma obra coletiva permanente.
A essa fragilidade interna soma-se uma maldição geopolítica: dividir o mesmo espaço estratégico com potências como Estados Unidos, Inglaterra e França. Nenhuma delas jamais demonstrou real interesse em ver o Brasil transformar-se num competidor industrial, tecnológico e geopolítico plenamente autônomo. Seu conforto estratégico sempre dependeu de um Brasil previsível, dependente e subordinado.
Ao longo da história, essas potências atuaram para preservar essa dependência por meio de mecanismos sutis: regimes comerciais desiguais, pressão financeira, condicionamento diplomático, alinhamento ideológico, bloqueios tecnológicos e captura cultural. O controle raramente se exerce pela força explícita. Opera pela normalização da dependência, pelo enquadramento silencioso das possibilidades nacionais, pela indução constante ao papel de exportador de commodities e consumidor cativo.
Essa lógica não é abstrata. Em 1924, uma missão britânica foi enviada ao Brasil para auditar suas finanças. Durante quase um ano, estrangeiros tiveram acesso a documentos internos, orçamentos e contas públicas, não para apoiar o desenvolvimento, mas para decidir se o país merecia novos empréstimos. A soberania foi tratada como um crédito condicionado.
Quando a sutileza não basta, entra em cena a vigilância. Em 2012, revelou-se que a NSA havia espionado a presidente Dilma Rousseff e interceptado comunicações estratégicas brasileiras em escala superior à dedicada a Rússia e China. Não se tratava de um erro, mas de um recado: autonomia, mesmo moderada, não é tolerada sem monitoramento.
O Brasil, portanto, não enfrenta apenas seus próprios impasses internos e o imediatismo de suas elites. Enfrenta também um sistema internacional estruturado para premiar a obediência e punir a autonomia. Toda tentativa séria de soberania encontra resistência, chantagem financeira, pressão reputacional e disciplinamento disfarçado de racionalidade técnica.
Nessas condições, a construção de uma nação torna-se tarefa quase hercúlea. Quando a instabilidade interna se soma à interferência externa permanente, o país é empurrado para um estado de dependência crônica, condenado a fornecer matéria-prima, exportar baixo valor agregado, importar tecnologia e abdicar do próprio futuro. Não por incapacidade histórica, mas por um cerco político, econômico e simbólico que se renova a cada geração.

